The end

O dia em que o Amor conheceu o Ciúme, achou que havia encontrado o par ideal. Ele se sentia muito amado, o Amor, com todas aquelas atenções exacerbadas do Ciúme, aqueles olhos que não descolavam dele, que pareciam pregados em sua nuca a cada vez que virava de costas e trocava cumprimentos ou amabilidades com alguma Paixão. Mas o Ciúme, por sua vez, doía-se com cada sorriso distribuído pelo Amor a outros alguéns; sentia o peito rachar a cada instante que desconfiava, que fantasiava apenas, a possibilidade de o Amor se partir em outros amores que não aquele. O relacionamento virou um impasse inevitável, intransponível até.  De um lado, o Amor alegando que o Ciúme o sufocava, que o transformava em mera Dúvida, que o impedia de assumir sua personalidade naturalmente amorosa em plenitude. De outro, o Ciúme enlouquecia envenenado pela Posse e pelo Abandono, querendo todo o Amor só para si, exclusivo, sem metades.  Quando o romance chegou ao fim, o Amor continuou amando. Já o Ciúme se casou com a Inveja, numa cerimônia da qual o Amor não participou.   

Táscia Souza

Publicado em: às 24 24UTC janeiro 24UTC 2012 em 14:25  Comentários (2)  

Guinada

Três meses de longas férias renderiam um pouco mais de descanso. Pelo menos à noite, se não fosse às aulas intensas de jump. Pular era seu escape, como se os movimentos pudessem chacoalhar uma vida extremamente organizada. Mas ela não entendia disso.

Até março, acordaria todos os dias de manhã e iria para o estágio de treinamento profissional. À tarde, se trancaria na biblioteca e avançaria na quantidade de livros lidos. Na verdade, não sabia como aquelas leituras sebentas e enjoadas lhe beneficiariam algum dia. Percebeu que pesquisar como aluna era conhecer, não descobrir. A vida, por outro lado, era desvendar.

Três semanas após o início da rotina, escorregou da minicama elástica. Bateu a cabeça com força. Mas foi o pé que quebrou. Imobilizada, trancada, irritada na cama de casa, só pensava naquilo que deixava de fazer. Contorcia-se, suava, gritava. Experimentara inúmeras sensações, ora de raiva, ódio e rancor. Em outras, ria, se divertia e zoava da condição. Aquilo que é hábito dificilmente torna-se fardo.

Só saiu da cama faltando um mês para o retorno à faculdade. O pé não estava tão recuperado. Mancava e se aposentara do jump. No desespero para, pelo menos, ter lido alguns livros, percebeu que a memória tinha evoluído. Uma lida bastava e aquilo pra sempre guardado ficava.

Pensam que se transformou na melhor acadêmica, com trabalhos em pesquisa brilhantes? Não, virara atriz.

José Eduardo Brum

Publicado em: às 17 17UTC janeiro 17UTC 2012 em 9:38  Deixe um comentário  

Ação social

- Abre essa porta!

- Shhh… São quase duas da manhã…

- Que se dane. Tinha que ter pensado nisso antes de chegar em casa a essa hora.

- Não consegui chegar mais cedo.

- Tô cansada de você chegar tarde e entrar no banho e no dia seguinte vir com conversa mole de reunião até tarde.

- É da ação social…

- Mentira! Tava com uma vagabunda qualquer.

- Amor, eu…

- Não vem com essa de novo, caramba. Abre a porra da porta!

- Os vizinhos…

- Abre a porta que eu falo baixo.

- Eu posso explicar.

- Sempre assim, eu posso explicar, não é o que você está pensando. Abre logo a porta e me diz quem é a vabagunda. Deve ser muito boa pra você chegar tarde, tomar banho e ainda colocar a camisa de molho pra eu não sentir o cheiro.

- Não é isso…

- Vagabunda! Abre essa porta e conversa comigo ou estamos acabados.

- Vou abrir, mas…

- Abre logo e sem mas.

- Não é vagabunda, amor. É vagabundo.

As mãos dele sujas de sangue, parte da camisa escura, as mangas arregaçadas,  suor no colarinho.

- Oferecemos abrigo e comida pra mendigos. Alguns rejeitam, preferem mendigar. Matamos eles, um por mês.

Olhos marejados, ela mal podia esperar para que ele tomasse o banho e fosse lhe dar um beijo de boa noite.

Gustavo Burla

Publicado em: às 9 09UTC janeiro 09UTC 2012 em 9:22  Comentários (4)  

2012

A primeira vez em que pensou sobre o assunto, acreditou que o fim do mundo seria em 1984. Na verdade, ninguém lhe disse isso; foi apenas um palpite ao ver os números que substituíam o título do livro que o pai lia todas as noites. Letras por números? Era ou não um sinal claro do apocalipse?

Mas depois pensou bem – ela era um pouco lenta pensando, principalmente aos seis anos de idade – e se deu conta de que aquela data não poderia ser a do fim do planeta. Podia ainda não ter aprendido as operações aritméticas, que só eram ensinadas a partir da primeira série, mas a irmã mais velha lhe mostrara um truque com a calculadora para descobrir em que ano nascera. E se estavam então em 1990 e haviam acabado de comemorar seu sexto aniversário, no qual ela ganhara os tão ansiados patins, aquele numeral assustador da capa do livro era justamente o que indicava seu nascimento. Ou seja, nada de hecatombe geral. Ou será que o mundo tinha acabado e depois recomeçado, tendo ela a tarefa de conduzir essa nova civilização?

Mais tarde lhe disseram que o universo ia ter fim mesmo era no ano 2000. Recorreu à velha mágica da calculadora novamente – embora, àquela altura de menina prestes a completar o primário já devesse dominar as contas (ela era de fato um pouco lenta, vejam bem) – e constatou que o Armagedon seria logo após seu aniversário de dezesseis anos. Aquilo, de certa forma, provocou um desespero maior do que antes. Uma garota não deveria ser obrigada a morrer antes de pelo menos completar dezoito. Antes de conseguir finalmente deixar a escola! Era fatalidade demais para uma adolescente! E se fosse lenta também em assuntos amorosos e não conseguisse sequer arranjar um namorado até lá? Ou dar um beijinho na boca que fosse?

Quando 2001 chegou, ela já tinha beijado – e anotado em seu caderninho, para não correr o risco de perder as contas – dezesseis rapazes, um para cada ano da vida que não queria ver desperdiçada. Por isso, dessa vez, o fato de o mundo não ter terminado definitivamente ali foi até um pouco decepcionante e a sensação de trabalho perdido só foi abrandada quando escutou por alto a história do calendário maia et cetera. Seria bom ter um tempinho a mais para programar o que fazer até lá.

Táscia Souza

Publicado em: às 4 04UTC janeiro 04UTC 2012 em 8:49  Deixe um comentário  

O presente encantado

Qual é o sentido do Natal? O que ele representa?

Era uma casa com oito pessoas: um pai, uma mãe, quatro filhas e dois cunhados. Apenas em grandes datas ocorria a reunião de todos. Orgulhos eram fingidos, felicidades eram montadas, o que deveria ser dito permanecia velado. Era o retrato de uma família típica e perfeita.

No entanto, naquele ano houve um acréscimo. O namorado da filha mais nova fora convidado, embora aparecido repentinamente seja o termo mais adequado. Ele não era o ser mais bem quisto, mesmo que nenhum pretendente já tivesse sido considerado perfeito suficiente. De acordo com a matriarca, o recente convidado vinha de uma família de macumbeiros. E para piorar tinha trazido um enorme frango.

O prato, muito bem decorado, exalando um cheiro apetitoso, era quase um elefante branco. A família inteira olhava para ele, sabia o que significava, mas não comentava. O frango estava enfeitiçado, ‘macumbado’, possuído, oriundo de alguma galinha preta de sacrifício de encruzilhada. Como não comê-lo então?

Apesar dos receios, a carne foi cortada e realmente estava encantada, pois seduziu todos com a suculência, com o aspecto macio e sedutor. Tirando a mãe, ninguém se conteve. Foi a única carne que não sobrou.

Durante a arrumação da cozinha, a velha senhora dizia para as filhas que elas fizeram errado, que iriam ter problemas, que pegaram um encosto, que não deveriam, que já sentia as pragas caindo sobre seus rebentos.

Conclusão, no dia seguinte, a mãe caiu em cama, ficou doente, com febres altas, dores no corpo todo, sem que ninguém soubesse ao certo o que tinha. Durou uma semana o sofrimento. Só ela ficou assim. O frango acabou sendo um instrumento transverso, trouxe apenas a ruindade para aquela que tanto profetizou e se recusou a experimentá-lo.

Às vezes, a redenção e a benção vêm de onde menos se espera.

José Eduardo Brum

Publicado em: às 27 27UTC dezembro 27UTC 2011 em 14:56  Deixe um comentário  
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