Boxe entre prateleiras

Quem o via todos os dias assim, sentado no fundo da biblioteca, calado e sozinho, não imaginava a fúria que se escondia por trás de seus óculos redondos e seus ombros curvados. Não possuía bem uma força física, incapaz que era de erguer um dedo para quem quer que fosse. Não por falta de vontade, que fique bem dito; tinha gente que até merecia. A verdade, contudo, era a consciência de que seu porte franzino não o ajudaria muito a sair ileso de uma briga se por ventura resolvesse entrar nela. Por isso lutava apenas com os livros. Literalmente. Ou seria literariamente?

Começou ainda criança, antes mesmo de a professora da pré-escola tentar ensinar aos outros as primeiras letras. Ele aprendeu sozinho, num dia em que os pais o levaram a uma livraria e, cruel e paradoxalmente, proibiram-no de tocar em qualquer espécie de exemplar dizendo que era muito novo para entender aquelas coisas. Quem pensa que as crianças de quatro anos não têm capacidade de se sentir ofendidas é porque não presenciou aquela cena. Endireitou os aros que lhe corrigiam o estrabismo e catou escondido um Monteiro Lobato na estante do fundo. Quando deram por ele já tinha agarrado Narizinho pelas sílabas e pelos cabelos.

Depois disso nunca mais parou de domar palavras. Bastava alguém dizer que era difícil que lá estava ele, sem a menor disposição para deixar o autor vencê-lo já nas primeiras cem páginas. Foi assim com Sartre, Camus, Melville, Hemingway, Guimarães e até com Proust. Mesmo quando não entendia de cara insistia até compreender, arranhando cada letra, esmurrando as palavras uma a uma, até que conseguisse fazê-las ter algum sentido. O final dessas batalhas, porém, encontrava-o ofegante e desfeito, como se tivesse apanhado dez rounds antes de recobrar as forças para o nocaute.

Foram incontáveis lutas até o dia em que a bibliotecária lhe contou a filosofia de Montaigne: “Quando encontro dificuldades na leitura não me preocupo demais, pois se insistisse, perde-me-ia e o meu tempo; meu espírito é de compreensão imediata. O que não entendo à primeira vista, entendo menos me obstinando”. Largou Joyce de lado e abriu uma revista em quadrinhos.

Táscia Souza

Publicado em:  on 8 08UTC fevereiro 08UTC 2010 at 11:53 Comentários (1)

Uma simples tarde de quinta

De repente o telefone tocou, perguntando se poderia comparecer naquela tarde. Arrumou a pouca bagagem correndo, deu uma passadinha no futuro ex-trabalho e se preparou para embarcar. Sabia o motivo de tal chamada. Seria contratado. Enfim alguém estava lhe dando crédito. Ou oportunidade:

- Você é uma ótima pessoa, foi nosso melhor candidato. Todos gostaram da sua visita, simpatizaram. Tem bagagem. Mas não estamos procurando alguém gabaritado e de boa índole. Queremos uma pessoa besta sem escrúpulos. Que se arrisca, que corra de frente para o perigo.

- Eu posso ser assim

- Acho que não. Quero uma pessoa que não questione nossa busca frenética por sangue, violência, baixaria, acidente e morte. É isso que traz dinheiro. É isso o que o povo quer. Você não se encaixa aqui. Me desculpe.

- Por que me chamou se não era sua intenção contratar?

- Estou fazendo meu doutorado sobre como as pessoas reagem ao receberem notícias ruins, que as decepcionam. Você é uma cobaia. Enquanto eu falava, fui percebendo traços de agonia nos olhos, nervosismo no nariz, apreensão na boca. Vi veias ficando mais intensas. Sua cor variou cinco vezes. Isso tudo foi por uma causa nobre.

- E você já se autoavaliou?

Saiu dali com as mãos doloridas, mas tinha arrebentado a cara daquele sujeito petulante. Uma pena não ter contado quantos dentes quebrara. Pelo menos, fora misericordioso: não quebrara o espelho na testa dele, oferecera-o para que pudesse se analisar depois da surra.

José Eduardo Brum

Publicado em:  on 2 02UTC fevereiro 02UTC 2010 at 8:29 Deixe um comentário

Acabamento

Procurou por meses pelo apartamento perfeito e não encontrou, o que chegou mais perto tinha vizinhos calmos embaixo, nenhum em cima, sem elevador ou porteiro, vaga na garagem de frente para a saída e uma vista de doer o coração de tão bonita. Mas tinha um prédio em frente ao seu, do outro lado da rua, quase pronto. Queria evitá-lo, mas, ponderando espaços e valores, era dos males o menor.

Mudou-se.

Diariamente acordava e dormia olhando para o prédio, vazio, cinza, sem acabamento, no canto do enquadramento, mas chamando mais atenção que o resto da vista. Vez por outra, geralmente à tarde, via um pedreiro ou outro fazendo um nada por lá.

Mantinha a cortina entreaberta… Entrefechada, é esse o termo, para ninguém violar sua privacidade, e ainda assim não andava mais de cueca pela casa ou saía pelado do chuveiro, preocupado com o prédio em frente.

Mês após mês, o acabamento da fachada do prédio foi se completando, um andar aqui, outro ali, sempre com a tela verde protegendo os pedestres e carros lá embaixo. Mas quem protegeria sua intimidade, ainda mais com tantos vizinhos…?

Na iminência de vencer o contrato o prédio estava na mesma, ainda sem o acabamento, ainda sem vizinhos, e por todo o tempo em que viveu ali nem mesmo um olhar tentou penetrar suas cortinas, invadir sua privacidade, entrar em seus temores. Sofreu por antecipação.

Gustavo Burla

Publicado em:  on 25 25UTC janeiro 25UTC 2010 at 13:09 Comentários (1)

O menino que não sabia sorrir

Um dia ela lhe disse que queria escrever uma peça. Ele arregalou os olhos: fazer teatro era uma coisa, isso ele fazia desde que se entendia por gente, na frente do espelho. Daí a se aventurar pela dramaturgia era coisa bem mais complexa. Mas ela era complexa mesmo, não era?

Inspirada num livro que eu li, ela explicou. Qual livro, criatura, se o que mais ela fazia da vida era ler? Ah, é um livrinho de criança, que conta a história de um menininho que um dia perde seu sorriso. Um menininho assim, feito você.

Na mesma hora ele parou de sorrir. Como assim, feito eu? Não passa um só minuto sem que eu dê uma gargalhada! Estou sempre com os dentes à mostra! Ela piscou os olhos, complacentemente. Dentes à mostra também pode ser ameaça de morte.

Ele bufou. Ô sujeitinha para inventar moda! Primeiro uma peça e agora aquela história de que ele não sabia sorrir. Mas iria mostrar para ela! Tomou fôlego para soltar aquela risada de deboche, mas tudo o que saiu foi uma tossida.

Quem sorria agora ela, os dentes à mostra como uma ameaça. Ele se sentiu encurralado. Seus dentes pareciam fugir garganta abaixo só para não serem obrigados a se exibir por entre a cortina de lábios. Tentou pelo menos repuxar os cantos da boca para cima e esboçar um sorrisinho amarelo, mas só conseguiu uma careta. Um menininho assim, feito eu.

Foi a primeira vez que chorou no palco.

Táscia Souza

Publicado em:  on 18 18UTC janeiro 18UTC 2010 at 9:31 Comentários (1)

Mudanças inesperadas

Ele era o típico machão, “pegador”, que sempre ressaltava o físico atlético e se exibia, na rua, para mulheres e espelhos (este foi o primeiro sintoma sutil).

Passou a juventude toda reclamando dos cabelos crespos que não lhe permitiam usufruir a sensação de mechas voadoras caindo na testa. Ao descobrir o relaxamento, de quinze em quinze dias estava no salão para reforçar o liso artificial e desenvolver a vaidade (este foi o catalisador, por expô-lo, pela primeira vez, ao ambiente feminino).

A fixação por músculos trouxe a neurose por dietas com muitas proteínas. Só comia carne de frango, claras cozidas e massa (os poucos perspicazes já notavam que ele estava mudando…).

Como estes ingredientes, especialmente o segundo, aumentaram o fluxo de gases indesejados expelidos, quase nenhuma mulher caía mais em suas cantadas. Passou a ficar solitário, remoendo paixões antigas, lendo romances melosos, identificando-se com heroínas (este período foi o de casulo, no qual alterações bruscas o modificaram).

Foi deixado de lado. Quando os familiares perceberam, já não adiantava recorrer a médico algum. Por causa dos músculos salientes e enormes do peito, passou a usar sutiã (nem vou comentar o choque causado quando a borboleta voou pela primeira vez). Os outros assessórios foram colocados para combinar com o visual.

Miraculosamente, tinha virado uma mulher.

José Eduardo Brum

Publicado em:  on 11 11UTC janeiro 11UTC 2010 at 20:53 Comentários (1)

Corredor

Valice era fascinada por corredor, tarada mesmo. Corredor de casa, quatro paredes levando a algum lugar ou a lugar nenhum. Se não fosse pobre e burra estudaria arquitetura só para construir enormes corredores. Seu sonho era ter um tão grande que da Nossa Senhora pendurada no final da outra ponta só se veria a luz.

Trabalhava muito, era faxineira freelancer, recurso para visitar mais corredores. Outro recurso era viajar. Era farofeira freelancer. Juntava cada trocado que tinha pra viajar e trazer lembrancinha, uma de cada lugar, pra pendurar no corredor de casa.

Valice também tinha um corredor. Não eram quatro paredes, mas praticamente quatro portas (sala, quarto, cozinha e quintal) com uns pedacinhos de parede nos lados e no alto onde ela pendurava espelhinhos que comprava nas viagens. Conhecia todas as feirinhas da região e todos os grupos de excursão.

Foi uma amiga quem disse pendura espelho que seu corredor fica maior. Pendurou um comum, na moldura, mas achou que era coisa de gente rica. Valice era refinada, mas era pobre. Trocou o espelho por um que tinha quando pequena, com uma menina ajoelhada num altar e Valice escrito do lado. Era ela, ficava ao pé do berço. Devia ser pras visitas saberem o nome dela. Ou pra ela mesma entender.

Foi o primeiro e continuava lá. Era também o maior, pois Valice, refinada, comprava pequenos suvenires, pra colocar quantidade, símbolo de sua cultura transmunicipal.

Um dia a escada não alcançou a parte alta do corredor, que crescia com tantos espelhos, e teve que comprar outra. Comprou logo uma grande. E de viagem em viagem, Valice, cada vez mais culta, foi a outros estados e a outras feiras.

Aposentada, viajava mais e mais e comprava espelhinhos de todos os lugares. De Aparecida trouxe o último, o único maior que seu altar, e deu jeito de pendurar no teto. Valice era requintada, queria fechar com chave de ouro. Enquanto o velho se esticava para encostar o dedo no dedo do moço, Valice estrebuchava de felicidade quando a luz a alcançou lá no chão.

Gustavo Burla

Publicado em:  on 4 04UTC janeiro 04UTC 2010 at 11:30 Comentários (1)

Ano novo

Encheu a boca com doze uvas verdes – uma para cada mês do ano ainda em trabalho de parto – e prometeu silenciosamente que a partir do próximo dia a vida seria diferente. Iria emagrecer. Entrar para uma academia. Fazer lipoaspiração. Mudar o corte do cabelo. A cor. O guarda-roupa. Arranjar um namorado. Casar ter lindos filhos ser feliz para sempre.

Os pensamentos, porém, foram ficando sem fôlego no completar das doze badaladas, as bochechas já naturalmente cheias ainda mais inchadas pelas frutas redondas. Afligiu-se ao ver as pessoas se aproximando para abraçá-la e desejar-lhe toda sorte tudo de bom feliz ano novo essas coisas enquanto sua boca abarrotada de uvas mal podia grunhir em resposta.

Numa previsível reação orgânico-fisiológica, engasgou. Sentiu que alguém batia em suas costas. Outro lhe levantou os braços. Mais algum a enlaçou fortemente pelas costas e pôs-se a comprimir-lhe o diafragma. Não conseguia falar, gritar ou respirar, mas ouviu quando resolveram chamar o resgate.

Quando o carro do corpo de bombeiros estacionou já era tarde. O simpático homem da mesa ao lado engoliu com esforço suas próprias uvas verdes e enfiou o dedo gordinho garganta abaixo da mulher, tirando a fórceps de lá toda a sufocante angústia da solidão. As sirenes da viatura parada na rua tiveram som de fogos de artifício quando ela sorriu agradecida e murmurou “Feliz ano novo”.

Nem precisou entrar para a academia.

Táscia Souza

Publicado em:  on 28 28UTC dezembro 28UTC 2009 at 9:29 Comentários (1)

Todo mundo está esperando

Já não sabia há quantos anos olhava aquele horizonte esverdeado, tomava fôlego e começava a machadar. Nada de motosserras, ainda artesanal. O ritual era o mesmo. Novembro chegando à metade sinalizava que a plantação deveria ser cortada.

As pessoas do vilarejo eram as únicas contempladas com os pinheiros. Mas antes que cada casa ganhasse a própria, tinha o cheiro. Impressionante! As primeiras machadadas jogavam no ar o aroma pesado, estimulante e gritante da seiva que não iria mais chegar ao destino. O povoado ficava em estado de excitação, de alegria, de expectativa. Hora de comprar lembrancinhas, de começar a matar porcos e galinhas, de arrumar a sala com presépios e decorações natalinas.

No entanto, naquele Natal, ele se recusara. Seria ecológico. Não iria derrubar nenhuma. Deixaria o verde no lugar como se quisesse mostrar que estava seguindo as agendas contra o aquecimento global.

O povo foi ficando inquieto. Queriam iniciar os preparativos, mas tinham medo de quebrar a tradição e receberem uma grande maldição. Chamaram o prefeito, apelaram ao padre e requisitaram o delegado. Recolheram assinaturas. O assunto do momento era o atraso dos pinheiros. Ninguém se deu ao trabalho de perguntar-lhe a razão da demora, só reclamavam e insistiam que aquilo era um absurdo. Nesse meio tempo, os comerciantes, junto das galinhas, porcos e perus, eram os únicos contentes: estes, por acharem que seriam poupados de tão trágico destino; aqueles, pensando em aumentar preços pela venda próxima à noite de Natal.

Ele estava satisfeito consigo mesmo. Fizera algo diferente, não seguira protocolos ou determinações. Salvara os pequenos pinheiros que cultivou e viu crescer. Não se envolvia no Natal, nem aparecia na cidade por não conseguir encarar os pinheiros que secavam à medida que o tempo passava. Ali, em pé, eles eram todos seus.

Os habitantes do vilarejo não se agüentaram mais. Chamaram os jornalistas da capital. Aquela situação era intransigente! Já que os manda-chuvas não quiseram intervir, eles próprios, tornando-se uma corja de “bem-feitores”, invadiram a área e cada um tomou o pinheiro que quis. Satisfeitos, foram montar seus natais.

Coitado, não pôde fazer nada. Não barrou ninguém. Apenas seguiu a lógica capitalista: se era uma necessidade incontrolável ter aqueles pinheiros, passaria a cobrar. Uma fortuna por cada pé.

José Eduardo Brum

Publicado em:  on 21 21UTC dezembro 21UTC 2009 at 22:16 Deixe um comentário

Cinema a três

 

O tempo difere para cada um, donde não se pode aferir se a história é nova ou velha, mas os homens eram três, o filme era Coração Valente, a tarde era de quinta e o conto é fato. Pode ter invencionices, mas novamente o tempo é quem pode julgar.

Na terceira vez em que o filme entrava em cartaz no Cine Veneza fomos nós assisti-lo: o peruca, que assim chamo porque usava peruca, o velho, que não era velho mas o mais velho dos três, e eu, que sou eu mesmo, cheio de todos os cansaços quantos o mundo pode dar.

Era o último dia da última vez do filme no cinema e fomos os três, só os três, o peruca adiante à direita, eu no meio, no meio mesmo (latitude e longitude), e o velho duas fileiras adiante, bem à esquerda. Ao nosso redor o silêncio, lá fora o resto. Na tela o filme, com cada cena conhecida pelos três.

O primeiro a falar não lembro, o último fui eu. Cinema é lugar de estar sozinho, de deixar o filme fazer tudo. E nós deixávamos, ele fazia tudo o que nós dizíamos e, como o antecipávamos, fazia melhor. Parecia conversa ensaiada, tinha o time certo, a pausa calculada, a intimidade de velhos amigos. Os quatro.

Na hora de segurar forte na cadeira, todos seguramos, na hora de conter as lágrimas nem todos tentamos, na hora de nos despedir, todos calamos. Cada um a seu tempo, com a cabeça baixa, misturamo-nos à rua.

Gustavo Burla

Publicado em:  on 14 14UTC dezembro 14UTC 2009 at 14:26 Comentários (1)

Com muito açúcar

Os livros eram de adolescente, isso tinha vergonha de confessar. Por isso criou um pseudônimo qualquer para participar do fórum de discussões sem ter que revelar para todas aquelas menininhas sonhadoras que os romances que as mulheres lêem aos quinze anos costumam ser bem diferentes daqueles que vivem aos trinta. Ali, maquiada pelo nome inventado e pela balzaquiana idade não-revelada, podia soltar a imaginação faminta de histórias de amor açucaradas e com previsível final feliz.

Começou escrevendo outras versões dos mesmos livros, narrados sobre a ótica do personagem de maior apelo entre suas jovens companheiras de delírio. Depois, partiu para as continuações, atiçando a curiosidade das incansáveis leitoras. O número de garotas fanáticas que acompanhavam suas histórias emprestadas foi aumentando; semanas depois apenas e seu fake já tinha mais amigos no Facebook e mais seguidores no Twitter do que ela conseguira angariar em todos os anos de dedicação internética. Por fim, já sonhava com um livro só seu, que venderia milhões de cópias em todo o mundo, ganharia uma adaptação bem hollywoodiana e arrastaria fãs histéricas aonde quer que passasse.

Foi quando o noivo, há dez anos cozinhando-a em banho-maria, sentiu o temor de perdê-la para aquele ambicionado e ultracalórico futuro e resolveu pedi-la em casamento. Ela nem pestanejou: deu um tempo no cardápio de romances de quinze anos e preferiu a dieta dos trinta.

Táscia Souza

Publicado em:  on 7 07UTC dezembro 07UTC 2009 at 9:35 Comentários (3)