Até o último gole

Olhos lindos ele escreveu e talvez tenha sido o princípio. Do abismo sim.

O copo espichou-lhe os olhos vítreos por cima do balcão, o coquetel de culpa transbordando, entornando no guardanapo. Podia sentir na coxa o chamado vibrante do celular, insistente, que ele escondera no bolso para que a moça não visse a luz que o mandava para longe. O silêncio sempre o deixava meio bêbado, mas era melhor que ela lesse sua amargura do que a ouvir jorrar de seus olhos condenados. Enquanto ela mirava o papel, ele bebericou um pouco e o gosto de remorso líquido desceu queimando pela garganta afora. Por fim, terminaram juntos: ela virou a última página; ele, a última gota de autorrepúdio. Os olhares se encontraram devagar, meio que embriagados de si. O celular insistia. “Essa aqui sou eu?”, a moça sorriu maliciosa, o ego afagado pela heroína da história. Ele devia dizer: “Não, esta”, e apontar para a outra, a que terminava sozinha sentada num balcão de bar. Havia ensaiado mil vezes, repassado cada palavra no caminho. A garrafa de arrependimento, contudo, já estava vazia.

Desligou o celular.

Táscia Souza

Publicado em:  on 16 16UTC Novembro 16UTC 2009 at 9:46 Comentários (2)

Marcas

 

Cada um tinha seu ritual, seu momento de fuga da realidade. Como se o corpo congelasse e a mente saísse, voasse e encontrasse aquele período perdido do tempo.

Maria Célia, sempre que arrumava a cama, se lembrava. Ele estava de frente para o espelho, arrumando o quepe. Antes que ela percebesse, ele já havia lançado aquele olhar intenso, carregado, forte. No entanto, como era o último contato entre eles, na hora Maria não percebeu que era um adeus silencioso.

Tina entrava no carro e via a figura dele erétil, calma, imponente e serena no lado do carona. Queria vender o carro para afastar este fantasma. Queria preservar o carro para manter a lembrança. Recordava o cheiro forte do desodorante, a barba sempre bem-feita, a segurança que transmitia, mesmo não olhando para as direções.

Guilherme travava sempre que via uma ambulância. Ressentia sempre na pele aquela certeza fria de que ele já estava morto quando o deitaram na maca e o levaram para o CTI. Os ossos de Gui se tornavam gelados e ele fechava os olhos. A imagem era nítida: ele desacordado, carregado por quatro homens fortes. Guilherme queria ter ajudado, na hora não conseguiu.

Daniel bloqueava, achava que tinha superado. Mas vieram os sonhos. Ele na chuva, ele no quarto, ele sorrindo, ele da mesma maneira de sempre. Seu momento de escape era durante o café da manhã, principalmente se comia sozinho. Lembrava da despedida, quando o viu pela última vez. Ia retornar para a cidade. Ele estava no quarto, esperando o café ficar pronto. Daniel, despedindo-se, deitou em cima do corpo dele, como se quisesse mostrar: “Você ajudou a construir o que sou”.

Os quatro não compartilhavam ou dividiam estas “doces” e “traumáticas” lembranças. Embora todos soubessem que elas existiam. O velório havia revelado: Maria Célia não viu o corpo dele na sala, ficou sentada o tempo todo na cama, encarando o espelho; Tina dormiu dentro do carro; Guilherme, ao contrário, não fechou os olhos, reclamava de uma dor de cabeça latente que parecia uma sirene. Daniel se isolou numa quina de parede, se alguém o abraçava ou tocava, gritava.

Família de malucos? Não creio nisso. Apenas ordinárias pessoas que nunca souberam se desprender.

 

José Eduardo Brum

Publicado em:  on 10 10UTC Novembro 10UTC 2009 at 8:45 Deixe um comentário

Polinização

 

Jonathan Ive é designer da Apple, aquela empresa que revoluciona o mundo toda vez que lança um produto novo. Ele parece não se gabar disso, se diverte com isso. Não com o fato de criar os produtos que revolucionam, mas com o fato de criar. E quem disser que ele cria, ele nega. Nós criamos, afirma.

Nós não são os designers, mas a equipe integrada por eles e por engenheiros, programadores e até pelo pessoal de marketing da empresa. Ninguém faz a sua parte e passa adiante com a consciência limpa: são reuniões e discussões infindáveis, críticas e apontamentos bem recebidos, porque se há um defeito quer dizer que algo novo pode ser feito. Polinização cruzada.

Cada parte sabe o que tem que fazer, mas só chega a esse conhecimento quando busca o que pode fazer no processo colaborativo. Desse modo, quando o produto está pronto… ele nunca está pronto. Arlindo Daibert dizia que a insatisfação do artista com um trabalho o leva a fazer outro. É algo como alcançar a perfeição, nem que por um instante, e começar de novo depois.

Se cada um fizer a sua parte serão várias partes prontas. Se depois de todo esse esforço persistir a insatisfação, a revolução começa a ganhar forma.

 

Gustavo Burla

Publicado em:  on 2 02UTC Novembro 02UTC 2009 at 10:38 Comentários (2)

Por una cabeza

 

Ensinou-lhe a dançar tango e zarpou para a Europa, num desses navios portenhos que levaram milongas até Paris. Não trazia no corpo nem uma réstia de sangue argentino nem jamais se aventurara pelas noites de Montevidéu, mas certo era que tinha vocação para as paixões trágicas e sabia traduzi-las como ninguém ao ritmo choroso de um bandoneón. Do perfume dela só restou uma velha fita VHS de Al Pacino à qual ele assistia repetidas vezes, sempre que queria bailar tristezas. À noite, pelas ruas, vagava em busca de pernas a quem entrelaçar Gardel, mas só encontrava sorrisos, sem desespero de amor traído, sem saber o que é morrer. Quando perdiam o passo, apenas olhavam-no amorosas e sussurravam: “um dia aprenderemos”. Sim, um dia… E a ele só restava chorar a música e esperar pela única que a sabia dançar.

 

Táscia Souza

Publicado em:  on 26 26UTC Outubro 26UTC 2009 at 10:42 Deixe um comentário

E se…

 

Quando criança, foi crescendo imerso num mundo sadio cheio de dúvidas e de perguntas. Muitas sem respostas:

- E se eu não tivesse nascido? E se o céu não fosse azul? E se eu bater no meu colega? E se a casa cair? E se papai não tivesse emprego? E se um pato cruzar com uma galinha? E se Deus não existir? E se eu não quiser ir à escola? E se eu nunca me casar? E se eu parar de comer? E se eu fugir? E se eu nunca adoecer?

Num ímpeto de ódio e falta de paciência, por volta dos 13 anos, a mãe gritou:

- E se você calar a boca pra sempre e parar com as perguntas?

Nunca mais ele falou. Sádico, fez a mãe sentir, até a morte, a resposta para uma de suas simples perguntas.

 

José Eduardo Brum

Publicado em:  on 19 19UTC Outubro 19UTC 2009 at 21:39 Comentários (1)

Os seguidores

Naquela manhã ele acordou para descobrir que tinha cinco seguidores. Como assim?, ligou para um amigo.

- São seus seguidores, eles te seguem, tudo o que você fizer eles fazem.

- Onde eu for eles vão?

- Vão.

- Se eu correr eles correm?

- Correm.

- Se eu… ah, sei lá, se eu começar a dançar no meio da rua…

- Eles dançam. Alguns ajudam a parar o trânsito, pro seu bem, mas o resto dança.

- No banheiro?

- Se você não for esperto, eles entram.

- Não tenho mais privacidade?

- Só com eles.

- E se eu não fizer nada?

- Eles esperam, o tempo que for necessário.

- E o que eu posso fazer?

- Aproveite. – e desligou.

Sentou-se com o telefone na mão sob tantos olhares. Refletiu sobre tanta insanidade, e isso eles não poderiam fazer, ou pelo menos acreditava. Olhou para o relógio, já era tarde, mas nem sempre tão tarde que não pudesse ser tempo. Diante dos seguidores abriu Alice no País das Maravilhas.

Gustavo Burla

Publicado em:  on 12 12UTC Outubro 12UTC 2009 at 10:23 Comentários (3)

Rio 2016

Foi só o presidente do Comitê Olímpico Internacional anunciar que o Rio de Janeiro será a sede das Olimpíadas de 2016 para ele rapidamente perguntar ao amigo:

- Será que vamos estar vivos até lá?

Era um cara novo ainda, 3.5 recém-completados, de forma que, fora uma fatalidade qualquer que ninguém pode prever, a preocupação era meio descabida. O problema é que a fatalidade em questão estava programada desde que se entendia por gente: não tinha nem feito dez anos direito e já assegurava para quem quisesse ouvir que – ah, a morbidez infantil… – ia morrer de infarto aos 42.

O fato é que todomundo ouviu e, passado o choque inicial e as brigas para que parasse de antever besteiras, todomundo também se acostumou com a idéia. Visto isso, foi só notar a aflição do desenganado para o amigo não perder tempo:

- É claro que eu vou estar vivo, e novo ainda. Agora você, tenho certeza que não.

Falou isso assim mesmo, na lata, sem qualquer compaixão pelo pobre que já sofria por não poder assistir à final do vôlei olímpico. Mas também, né, não cabiam meias sensibilidades; as contas eram claras: 36 em 2010, 37 em 2011, 38 em 2012, 39 em 2013, 40 em 2014, 41 em 2015, 42 em… 5 de agosto de 2016. Está certo que a dita cuja teria um ano inteiro para levá-lo antes que completasse 43, mas a Morte é meio sacana e não ia perder tamanha oportunidade.

De repente, porém, um lampejo riscou-lhe a mente, cheio de consolo:

- Se bem que eu nasci faltando cinco minutos pra meia-noite… Pode comprar meu ingresso pra cerimônia de abertura.

Táscia Souza

Publicado em:  on 5 05UTC Outubro 05UTC 2009 at 12:09 Comentários (3)

O outro lado da moeda

Era inusitado e benéfico. Demoraram a perceber, mas depois tudo se encaixava: Cláudia não pegava nada. Desde que nascera, nunca deu problema, ou contraiu alguma doença. Absolutamente nada, nem gripe, resfriado, catapora, alergia… Simplesmente nada. Também comia pouco. Se abusasse um pouquinho, já colocava pra fora. Parecia que tinha um escudo, protegendo-a. Aquilo que viesse de fora não se instalava.

Durante a infância, Cláudia não se importava; seu pai achava sorte; sua mãe desconfiava. Ao atingir a maioridade, a progenitora percebia mais e mais sinais: se pintava o cabelo, na primeira lavada, a tinta escorria como se fosse simples guache. O esmalte poderia ficar secando por sete horas, mas era só lavar as mãos que eles saíam facilmente. Os brincos não voltavam com a menina pra casa. Inusitado.

Quando atingiu a maioridade, apenas míseras gotas sinalizavam que ela não havia concebido. Como era filha única, começaram a ficar intrigados, querendo entender. E se fosse uma doença genética, uma mutação? Vários médicos, especialistas, macumbeiros, rezadeiros foram consultados. Não havia mudança: Cláudia era indiferente a tudo; o pai a achava mais especial; e a mãe sentia que aquilo não ia terminar bem.

E não terminou, transformou-se em praga. Ela casou cedo, mas não conseguia engravidar. Não segurava filho. Ele descia. Tentou várias simpatias, posições, técnicas, chás, remédios… Não funcionava. O pai, que tanto ansiava por herdeiros como Cláudia, pensando em disseminar uma raça forte e preparada com seus genes, morreu de desgosto. A mãe cometeu suicídio. Cláudia foi abandonada pelo marido. Quem queria uma árvore seca? Passou a vagar pelo mundo, observando como uma dádiva tinha se tornado uma maldição.

José Eduardo Brum

Publicado em:  on 28 28UTC Setembro 28UTC 2009 at 11:12 Comentários (1)

Pílulas bienais

 

Tietagem: jovem faz pose para tirar retrato ao lado de ídolo. Ao lado de um estande, estudante levanta o pezinho ao ser fotografada ao lado de uma capa de livro em formato ampliado dos Lusíadas, de Camões. Preterido, Memórias Póstumas de Brás Cubas teve a carência suprida horas depois quando outra, mais moça, fez o mesmo. Não havia obra de Jorge Amado no painel.

Musa literária: grades impedem fãs de se aproximarem de capa. Com o nome na capa da publicação, a musa literária arrancou gritos de fanáticos por uma foto das muitas que ela distribuía. Um dos rapazes, decepcionado, mostrou a foto: “pelo menos poderia ter autografado.” Foi mais difícil vê-la ao vivo do que na revista masculina.

Filas: confusão é resolvida com decisão amistosa. As filas para receber autógrafos de Ziraldo e de André Vianco se misturaram, gerando problemas entre os freqüentadores. “Eu estava indo pra lá e de repente cheguei aqui!” não entendeu um leitor. Diante da festa de literatura, os autores resolveram optar pela fila única e assinavam as obras do Vampiro Maluquinho.

Millôr: e daí se escreveu e não leu, pelo menos o livro vendeu.

 

Gustavo Burla

Publicado em:  on 21 21UTC Setembro 21UTC 2009 at 22:07 Comentários (1)

“Quanto a mim o amor passou”

Acordou uma manhã e tinha perdido sua poesia. De repente, o pedaço de céu claro que entrava pela janela do quarto não era mais o reflexo invejoso e pálido dos olhos de Inês, mas apenas moléculas de ar colidindo com a luz do sol e quebrando o espectro, dispersando o azul. A própria Inês, tão suave dormindo ao seu lado, não era mais a encarnação de Eurídice diante de sua lira encantada, e sim nada além do que uma mulher jovem deitada perto de um homem, a respiração regular como a de qualquer outro animal em estado de sonolência. As mãos tenras e brancas da esposa, unidas sob o rosto outrora bonito, não eram mais plumas macias que pareciam flutuar a qualquer gesto, mas somente um conjunto de pequenos ossos e articulações cobertos de pele alva. A pele dela, aliás, antes feita do mais fino cetim, era agora só um imenso órgão a revestir todo o seu corpo, célula por célula.

Ficou encarando-a, enojado, incapaz de transformar em versos os resquícios das antigas aulas de ciência que nem sabia estarem presos em sua memória. Ao seu lado Inês espreguiçou-se, seus lábios distenderam-se no que um dia antes ele ainda pensava ser um raio de luz, e ela cravou nele seus imensos olhos azuis, reflexo invejoso e pálido do pedaço de céu claro que entrava pela janela.

Pediu o divórcio.

Táscia Souza

Publicado em:  on 14 14UTC Setembro 14UTC 2009 at 10:53 Comentários (2)