Hupokhondria.com

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O armário de remédios ficou pequeno e tivemos que mudá-los de lugar. Agora nossas receitas ficam no hupokhondria.com.

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Contando os dias

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No apartamento havia um calendário branco, do tamanho de uma folha A3, pendurado na parede ao lado da mesa da cozinha. Ali anotavam tudo: consultas médicas futuras, trocas de lente de contato, início do período menstrual, visitas que chegariam para vê-los dali a alguns dias, datas de viagens futuras. E anotavam sonhos também. Não descrições dos devaneios noturnos do inconsciente ou do subconsciente (não entendiam a fundo de psicologia para compreender a diferença), mas sonhos de olhos abertos. Sabiam, por exemplo, o dia em que se mudariam para a casa nova, que ainda não existia; o dia em que um lançaria seu primeiro livro; o dia em que o outro seria entrevistado na avant-première de seu grande filme; o dia em que nasceria o primeiro filho, e depois o segundo; o dia em que o sonho deles — todos os sonhos deles — sairia do sonho e se tornaria som e luz e palavras e vida bem ali, diante deles.

— Mas e se não der certo? Se ninguém ler, ninguém ouvir, ninguém olhar, ninguém existir? E se não entrar no ar? Se não houver ar suficiente pra entrar.

— A gente marca o calendário e continua sonhando, todos os dias.

Táscia Souza

No cais da gare

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Estação de trem é triste…

É feliz!

As pessoas partem…

Chegam!

Sempre choram…

Isso é ruim?

Quando partem, sim.

E quando chegam?

Tem trem que nem para.

Para em outro lugar.

Isso é triste…

É esperançoso.

O trem não parar?

Imaginar pra onde ele foi…

Pra longe.

Deve ser bom de ir.

E voltar.

Pra ser recebido com alegria.

E com lágrima.

Por que tá chorando?

Por causa da conversa.

Ninguém chegou ou partiu.

Um dia você vai partir.

Eu?

Por que me trouxe aqui?

Porque gosto de ver os trens.

Um dia você vai neles?

Você quer ir?

Com você.

Sempre.

Gustavo Burla

Enquanto houver sol

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— Às vezes eu penso em como seria, sabe? Morrer? Não é pensamento suicida, nada disso não. Pensamento hipotético mesmo. Daqueles: o que aconteceria se eu morresse?, igual: o que aconteceria se chovesse hoje? Mesma coisa. E ainda assim dá um arrepio. O calo dói com a ameaça de chuva, o braço arrepia com a perspectiva de morte. — Pausa. Suspiro. Desculpas. — Eu não devia falar assim perto da senhora, me perdoa. É que às vezes… a senhora pensa nisso muitas vezes?

A senhora, cabelos muito brancos e rugas de muito tempo, lhe lança um olhar de brilho infantil.

— Eu? Só penso em viver. E no que aconteceria se fizesse sol.

Táscia Souza

Seleção para orquestra

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Vamos lá, próximo!

Silvio Stromboli.

Stromboli? Italiano?

É, da Sicília. De parte de mãe.

E quer entrar na orquestra por quê?

Meu sonho, desde pequeno.

Não foi isso. Quer entrar na orquestra por que instrumento?

Ah. Desculpa, entendi que…

Qual instrumento?

Peido.

Qual?

Peido.

Você toca…

Peido.

Peido?

Peido.

Como que…?

Posso tocar o hino nacional.

Da Itália?

Todos.

Com peido?

Com peido.

Tem melodia?

Total.

Mais o quê?

Te mostro a diferença do samba pro funk.

No peido?

No peido.

Sério?

Sério.

(tempo)

Roberto!, peido é sopro ou percussão?

Gustavo Burla

Fashion trip

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A meia de lã era companhia inseparável para o frio. Ou seria, se não puísse com tamanha rapidez. Tinha calculado dez pares para uma viagem de vinte dias. Achava que, como usaria sobre outra meia e era possível lavar nos hotéis em que se hospedaria, uma quantia equivalente à metade da jornada estava de bom tamanho. A primeira furou no dedão na primeira usada; a segunda no calcanhar. Ainda restam oito, pensou sem dar muita importância, enquanto largava-as nas lixeiras das suítes antes de fazer o check-out.

O ritmo aumentou, porém, na proporção da dor nos pés angariada com os passinhos de museu. Mais caminhadas equivaliam a mais bolhas, que por sua vez significavam mais rasgos. Chegou ao ponto de usar três meias de lã no mesmo dia, uma para a manhã, outra para a tarde e a terceira para a noite. Só que não havia meias que chegassem — eram só dez para vinte!, desesperou-se — e no fim teve que se contentar em não descartá-las pelos hotéis afora. É só não cismar de comprar sapato e ter que experimentar na frente do vendedor, resolveu, que fica tudo bem.

No embarque de volta, na fila do raio-x, livrou-se do cinto, do casaco e tirou tablet, notebook e cremes devidamente embalados da mochila. Tudo com antecedência para nada apitar, nem a máquina nem a cabeça do agente da polícia aeroportuária. Até que um as-botas-por-favor a fez tremer. Tirou-as, devagarzinho, tentando pensar num modo de esconder a estampa de joaninhas das meias de baixo que vazava constrangedoramente pelos enormes rombos nos dedos e no calcanhar de lã das meias de cima.

Sentindo os olhos de todos os policiais no seus pés, reuniu a pouca dignidade que lhe restava e informou, com classe, que polainas eram a última moda em Paris.

Táscia Souza

A garota no trem

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O melhor de viajar de trem era o abandono. Se entregava à paisagem, era seu momento de estar sozinho. Era seu momento. Só seu. Mas naquela viagem sentiu algo diferente. Pensou na vida e não encontrou nada. Olhou pelo vidro da janela e não percebeu incômodo. Numa poltrona do outro lado do corredor havia um olhar.

Quando os olhos se cruzaram, sentiu nos dela o sorriso. Desviaram para as paisagens, mas sentiu quando ela voltou a perscrutá-lo. Olhou de volta e ele ficou. Bastava ele olhar para o lado ou para dentro de si e ela estava lá. Manteve o olhar firme.

Ela piscou, desviou, voltou e piscou de novo. Ele nem piscava. Ela corou e ele percebeu que ela pensara coisas olhando para ele. Viagem longa, banheiro na ponta do vagão, ela olhou para ele de forma diferente.

Ela foi para a ponta do vagão. Ele foi para a ponta do vagão. Voltou sozinho, sentou na poltrona e voltou a sentir seu momento. Só seu.

Gustavo Burla

Cinco doses

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Para Leo, Pedro, Pedro, Tó e Vinicius

No dia em que comi poesia, pensei ter tido uma indigestão. Os versos me borbulharam as entranhas e vazaram pela boca, pelos dedos, pelos olhos, pelos poros. Jorros de palavras que não cabiam em mim.

Na emergência, pedi um remédio para o estômago.

– Comi um quilo de poesia e acho que não caiu bem, doutor.

– Poesia nunca faz mal – e me receitou melodia.

– Mas isso não é pro estômago, doutor; é pro ouvido.

– Tome cinco. A seco.

Nesse dia, virei canção.

Táscia Souza

Conectado com o tempo

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Estava pronto pra sair: moletom, calça comprida, luvas, gorro e até o cachecol com cheiro de guardado. A mãe perguntou aonde ia daquele jeito.

– É o tempo mãe, olha o aplicativo.

– Tem sol lá fora, um calor danado.

– O aplicativo disse que tava frio.

– Olha pra fora meu filho.

– Olha o aplicativo, mãe.

– Não tenho isso, mas tenho olho.

– Deve ter problema de conexão.

– O aplicativo?

– O tempo.

Gustavo Burla