O Câncer

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“Preciso parar de fumar”, disse e acendeu um cigarro. A fumaça subiu preguiçosa, sensual como serpente encantada. Em meio à névoa cinza-e-branca ele observou a reação dela no outro lado da mesa, misto de censura e depravação. Tinha um tesão inconfesso pelos dedos longos dele segurando o fumo, seus lábios displicentes soprando a fumaça para o alto. “Preciso parar de fumar”, repetiu, sentindo na boca o gosto enjoado de tabaco e cerveja. O estômago revirou-se junto com a cabeça; achou que ia vomitar. “Por que não pára?”, desdenhou ela. “Porque adoro”, respondeu enquanto aspirava o ar contaminado em volta deles. “Eu detesto.” Deu um sorriso que a fez revirar os olhos. “Paro quando você aceitar namorar comigo.”

Descobriu que tinha câncer no mesmo dia em que ela se casou com outro. Clichê: notícia ruim nunca chega sozinha. No hospital, nauseava-se menos com os remédios que com a idéia mórbida de vê-la em lua-de-mel. Perdia os cabelos na proporção em que ela ganhava corpo, o filho arredondando-lhe a barriga. Passou meses, anos desenganado. Os médicos agendaram dia e hora com a Morte para que viesse buscá-lo. Na data marcada, nem um segundo a mais ou a menos, bateram na porta. Arrastando-se, foi atender, com a resignação dos últimos passos e da última tragada.

Era ela. Atirou-se nos braços dele, lágrimas jorrando dos olhos negros e inchados. Estava magra, velha e separada. Sentindo os ossos por baixo da pele murcha e sem viço, concluiu que o casamento podia ser doença mais grave que o câncer. Entrou, sentou, falou um pouco da vida. “Preciso parar de fumar”, disse ele um tempo depois e acendeu um cigarro. Diante da brasa os olhos dela voltaram a ter o brilho matreiro de que se lembrava.

No dia seguinte, o médico apenas olhou estupefato para o resultado do exame, com cara de “como pode?”. Ele explicou: “Parei de fumar, doutor. Dá câncer.” E saiu pelo corredor afora, deixando a Morte, atrasada e esbaforida, mais estupefata ainda.

 

Táscia Souza

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 3 de março de 2008.

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Uma resposta »

  1. Parei de fumar. São três meses que parecem apenas duas horas. É como abandonar alguém com quem se esteve, co-ti-di-a-na-men-te, por mais de dois terços da vida, numa relação sem brigas – por vezes com algumas lágrimas, mas o amor também pode arder; total cumplicidade. Posso dizer que perdi o hábito de ascender o cigarro, como quem não compartilha mais sorrisos e tristezas. A lembrança dos melhores dias: essa, tem raízes profundas.

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