1.001

Padrão

 

A crueldade. As letras jogando-se do papel, tentando desesperadamente perfurar seus olhos. E os números fazendo coro, seqüência de zeros e uns incompreensivelmente analógica, brincando de Sherazade, buscando salvação em histórias há muito esquecidas para livrar-se do peso da morte.

 

1.001 livros que você deve ler antes de morrer.

 

A morte. Sentiu seu peso em forma de desafio, letras e números saltando da imensa brochura exposta na prateleira diretamente sobre seu peito, comprimindo, oprimindo. Como pode ser opressivo um corredor de livraria! Por um segundo o homem pensou que morreria ali mesmo, sem sequer ter tempo de saber quais os mil e um volumes redentores que precisava ter lido antes de enfrentar o fim.

 

O desejo, no entanto, conseguiu, ao menos por um momento, ser mais forte que o temor. Abaixou-se com certo esforço, até seus joelhos já fracos tocarem o chão, e tomou nas mãos aflitas o afrontoso livro, mil e um livros de uma só vez. No começo passava as páginas com cuidado, num misto de apreensão e reverência. Minto: era medo mesmo. Do mais puro. Do mais aterrador. Na medida em que as páginas se revelavam inócuas, porém, e cada livro essencial, um a um, desnudava-se como um corpo jamais tocado, o passar de mãos tornava-se mais nervoso, tomado de maior ânsia. Desespero. Mas nada; mais nada. Foram mil e um segundos de descoberta arrasadora do que é a angústia. 1.001.

 

Na milésima primeira página, as letras encararam-no insinuantes, borgesianas, tentadoras. A pressão sangüínea caiu; a imagem turvou-se, enegrecida, diante de seus olhos. Com fúria, arrancou a folha de papel e enfiou-a inteira na boca, dilacerando os parágrafos entre seus dentes, provando o gosto das frases em sua língua, sentindo as palavras descerem por sua garganta e escorrerem por suas entranhas. Aos poucos o sangue voltou a circular normalmente.

 

Apertou o enorme volume contra o tórax e disparou em direção à rua, sem nem se lembrar de pagar a compra, sem nem mesmo olhar para trás. Lá fora, o brilho de mil e um sóis a pino lembrou-lhe de que já era hora do almoço. Ele, contudo, não pensou em comer. Sempre preferiu os alimentos para o espírito.

 

 

Táscia Souza

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br,  31 de março de 2008.

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