Hipoacusia (ou vozes pífias)

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Foi tudo ao mesmo tempo. O toque do telefone, as buzinas histéricas dos carros, a velha que gritava do lado lamentando pela enésima vez a dor nas pernas, nos rins, nos dedos, nos olhos, na língua, ou em nem sei mais qual lugar o ser humano é capaz de sentir dor. Dor nos ouvidos. Sentiu uma fisgada assim que se afastou alguns passos, na chuva mesmo, para tentar escutar o que a voz do outro lado dizia. Era uma daquelas vozes que antecedem ocasos, não importa o que anunciem. Eu não gostei. (…) Não era o que eu esperava. (…) Eu achei pífio.(…) Eu faria muito melhor. (…) E ele num silêncio assim mesmo, de reticências. A dor nos ouvidos aumentando diante da insuportável acuidade de tantos eus. Por um segundo imaginou escutar a secreção escorrer por sua tuba auditiva. Otite crônica. Ou cansaço mesmo. Volte a me ligar quando aprender a pensar nós, disse intuitivamente, sem ouvir o som das próprias palavras, sem buzinas histéricas ou velhas lamentando dores. A única dor era a sua. O mundo mergulhou no vazio.

 

No dia seguinte, a voz se fez corpo, tímido, parecendo ensaiar um pedido de desculpas. (Nós…), leu nos lábios, com o silêncio aumentando. Não prestou atenção ao resto do discurso. Era tão tarde que deu graçasadeus por não ouvir.

 

 

Táscia Souza

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 5 de maio de 2008.

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