Pasárgada

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Nem sempre é tranqüilo ser amigo do rei.

Quando as tropas da Macedônia prenderam o monarca da Pérsia, seu séquito de paspalhões quase teve convulsão. A rainha desmaiou, o ministro gaguejou, e até o general do Exército, obrigado a ajudar na prisão, não conseguiu esconder a cara de desolação. O palácio de Pasárgada foi trancado a sete chaves para que os dezenove nobres da corte decidissem o que fazer. Um teve calafrios, o outro dor de barriga, quase vinte enfermidades acometaram-nos de uma vez. Por fim, porém, resolveram que não tinha mesmo jeito: ou era a cabeça do rei ou era seu próprio peito. E para evitar a triste rima, abriram as portas do palácio e juntaram-se à multidão que bradava por justiça. Não eram, que fique claro, nem tão justos, nem tão nobres. Mas a escolha era dura: ir embora de Pasárgada ou ser inimigo do rei. Preferiram o rock’n’roll dos gritos da população e condenaram o monarca a cem anos de prisão. Caso um dia ele voltasse, já tinham pronto o discurso: senhor, fomos obrigados! Perdoe-os, eles não sabem o que fazem! Se sua majestade acreditaria, tenho certeza de que não, mas manteria os privilégios para evitar mais traição. E o povo, como o poeta, abandonaria a bandeira e constataria que o mundo é mesmo uma bandalheira.

 

 

Táscia Souza

 

Publicado orginalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 14 de abril de 2008.

 

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