Adeus

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O Amor saiu de mim não como lágrima, mas como bile. Fruto da primeira mágoa, engolida anos antes como café amargo. Do fígado para o intestino, a tristeza fazia seu caminho, abrindo úlceras nas paredes do trato digestivo. O sabor acre do Amor passeava na minha língua todas as horas do dia.


Da janela do meu quarto, eu via a igreja, recortada pelo céu de um azul escuro de nuvens. No caminho de terra um homem subia, sem se importar com o casal de namorados que aproveitava a sombra para sorrir. Minha janela recortou a fotografia e pôs no álbum das memórias tristes. E eu ainda pensava preferir noites estreladas a girassóis.

Só quando os namorados se afastaram foi que eu vi o Amor, seu sorriso debochando do meu desconforto. Debrucei-me no parapeito e o líquido amarelo e viscoso caiu na terra onde os girassóis não nasciam. Os olhos, porém, ficaram secos. As únicas lágrimas foram as estrelas.

 

 

Táscia Souza

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 29 de setembro de 2008.

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Uma resposta »

  1. Tenho uma foto da Venus de Milo, que, dia ou outro, me empresta todo vigor da beleza e a ponho na moldura do meu monitor como papel-de-parede e, platonicamente, fico encantado. Posso me valer da mesma metáfora ao tentar descrever o que senti ao ler este texto. A emoção, às vezes, é olhos sem palavras… e uma boca meio aberta.

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