Às terças

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Houve um tempo em que mesmo as tardes de segunda pareciam manhãs de domingo. Acostumada ao marasmo da escassez de acontecimentos, mergulhava os dedos em palavras vãs, uma para cada um dos seiscentos e quatro mil e oitocentos segundos da longa e lenta semana que levaria mesmo séculos para passar. O tiquetaquear do relógio de ponto marcava as batidas de sua obsessão, só encerrada quando os ponteiros finalmente gritavam o término do expediente. Rua, casa, cama, sono, cama, casa, rua, trabalho. Incessantemente. Tique e depois taque.

 

As coisas começaram a mudar um pouco quando chegou a notícia de que o presidente fora preso. O telefone tocou às seis, em plena manhã de domingo, logo transformada em afobada tarde de segunda. Os dedos fervilharam à caça de palavras não mais tão vãs assim. Seiscentos e quatro mil e oitocentos segundos correram mais depressa do que a luz e até o feriado prolongado passou incólume, requebrando à beira-mar com seu bronzeado costumeiro, sem que ela sentisse sequer o gosto do sol. O único sabor existente eram os das denúncias e o da renúncia, que desceu como um manjar dos deuses pelo trato digestivo da população. Quem não iria digerir?

 

Na verdade, tudo isso é para dizer que, com tantos taques acontecendo a cada tique, ficou difícil reencontrar as palavras vãs das tardes de segunda. Mas, como já virou rotina, para elas sempre existem as terças-feiras.

 

 

Táscia Souza

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 17 de junho de 2008.

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