Atestado

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O humor à beira de um despenhadeiro, o incômodo quase físico só de pensar nas horas. Tinha medo de domingo à noite. Uma fobia surda, indizível, que remexia suas entranhas com uma habilidade ridiculamente cruel. À medida que escurecia, o pavor alastrava-se por suas glândulas, encharcando a pele de suores gelados, enquanto a televisão valia-se de irritantes sonoplastias e vozes e cores para propagar como é fantástico o mundo. Enroscou-se nas cobertas, trêmula, sem saber se de pânico ou de frio, a testa ardendo e os cabelos empapados de uma febre sem corpo ou calor. Não dormiu; o alternar de (in)consciências era mais uma vigília, os olhos arregalando-se a cada passar de minutos, à espera de um sol que parecia ter se cansado de nascer.

 

Quando a luz finalmente veio, foi incapaz de enxergá-la. Todas as fibras e ossos e peles e pêlos de seu corpo gritavam uma dor muda, rasteira, nervosa. Trouxeram-lhe um homem vestido de branco, talvez um médico para lhe salvar a carne, talvez um santo para lhe sorver a alma. Ele limitou-se a rabiscar qualquer coisa num papel, mas só o som da caneta traçando o prazo de seu repouso já teve o poder de aliviá-la. Saber-se doente na segunda-feira é, quase sempre, o melhor dos remédios.

 

 

Táscia Souza

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 18 de agosto de 2008.

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