Cinzas e rosas

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Toda a vida sentira frio em dezembro. O verão alto esquentava o chão e os corpos, mas, para ele, o céu azul parecia coberto de neve. No cômodo apertado que a família ousava chamar de casa, o entra-e-sai de gente aumentava nessa época do ano, o piso de cimento batido coberto de lama seca e pegadas. Sentava-se na soleira e via os irmãos comerem poeira pela ruela estreita entre os barracos, chutando bolas imaginárias. O telhado de amianto estalava de calor, mas seus lábios sentiam gosto de frio e sal. Quando não agüentava mais de tanta neve, ia para o asfalto e parava no sinal, olhando os carros e esperando que eles também o olhassem. Custou-lhe perceber que os carros e as gentes não têm olhos para ver.


Foi numa dessas caminhadas que viu um dos carros bonitos vomitando papel. Era uma folha delicada, cor-de-rosa. Apanhou-a porque parecia quente. Garranchos tão infantis como os seus sujavam o papel rosa de grafite cinza, transformando verão em inverno. Os olhos incertos procuraram sentido nas letras e pela primeira vez em seus nove anos sentiu que deveria prestar mais atenção ao que a professora da escola estadual tentava ensinar. Mas as crianças têm seus próprios códigos. O desenho de uma menina segurando uma boneca ao lado de um velho de roupa vermelha e barbas brancas dispensava o significado oculto das palavras.


Fazia frio sob a telha escaldante de amianto quando ele chegou. O resto de sopa de fubá havia sido devorado pelos irmãos até a última gota, mas não se importou. Um toco de lenha, um canivete e uma vela foram seus únicos alimentos naquela noite.


Penteou os cabelos vermelhos e colocou uma roupa encardida, mas branca. O sinal continuava com suas cores oscilantes, uma após a outra, comandando os carros. De repente, aquele que cuspia papel parou, ordenado pela luz vermelha. Ele bateu levemente na janela. Sentiu que as pessoas estremeceram levemente – também deviam sofrer com o frio intenso do verão -, mas mesmo assim o vidro se abriu. “Não tem moeda hoj…”, ouviu, sem prestar atenção no volante que falava. No banco de trás a pequena escritora dos garranchos cinzentos olhou para ele, como nunca carro algum olhou. Não parecia ter mais do que seis anos, com seus cabelos escuros e bochechas redondas. “Papai Noel entregou na minha casa por engano. Acho que é pra você”. Junto com o papel quente e rosa, o menino entregou-lhe a boneca de madeira entalhada durante toda a noite.


Não nevou naquele natal.

 

 

Táscia Souza

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 23 de dezembro de 2008.

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