Conjuntivite

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A voz à esquerda reclamava do pé. Era uma voz sem rosto, mas só pelo tom corpulento sabia-se que saía de um pé arroxeado, desses cujo inchaço escapa dos chinelos gastos. À direita, uma voz sem língua ou narinas – mas nem por isso menos úmida ou nasal – revezava-se com séries gigantescas de espirros, todos narrando ininterruptamente a quantos seres microscópicos a voz estava acometida. De olhos fechados foi ouvindo o alternar militaresco de lamúrias, sem poder distinguir nos sons estridentes as cores e formas de que eram feitos, a não ser aquelas que se desenhavam de maneira difusa por trás de seus óculos escuros quando vez ou outra arriscava, não sem muito incômodo, abrir um pouco as pálpebras cobertas de areia. Esquerda volver! e a voz inchada discorria sobre os calos e frieiras que lhe dificultavam os passos, mas não a fala. Direita volver! e o chafariz de secreções virulentas voltava a anunciar, não sem muito ruído, a epidemia que logo se alastraria por todo o posto médico caso as figuras de branco não se apressassem.

Quando finalmente chamaram seu nome, depois de algumas horas literalmente sintomáticas na fila de espera, ela até se esqueceu da conjuntivite.


– Qual o problema da senhora? – perguntou o plantonista, ignorando por completo os olhos vermelhos e lacrimejantes que a falta dos óculos deixou visíveis.

 

– Sabe o que é, doutor? Acho que estou com uma infecção nos ouvidos.

 

 

Táscia Souza

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 12 de janeiro de 2009.

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