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“Todos os dias é um vai-e-vem, a vida se repete…”


Eu não acredito quando dizem que, na hora da morte, sua vida inteira vem à sua mente e passa pelos seus olhos. Isso porque, no meu caso, toda a minha trajetória transita diante de mim das 10 horas até as 11 da manhã, ao ficar entre as plantas e a natureza. Revejo os passos que dei, os caminhos que trilhei, as escolhas que não fiz (e foram tantas) e a dedicação em vão que gastei. Se perdi, não sei. Se ganhei, também desconheço. Só possuo a ciência da minha vida, que não foi lá grandes coisas.


Na minha novela, não há somente as minhas histórias. Todos os dias escuto as narrativas de homens poderosos que pisavam nos inferiores, mas agora não têm pé para ficarem erguidos e dependem de uma cadeira de rodas; de mulheres enroladas em cobertores, sentindo muito frio (embora eu ache que mais da metade desse frio é interno e próprio), que foram bonitas antigamente e expunham seus corpos desejáveis em decotes proeminentes e pernas reluzentes; de profissionais brilhantes que perderam a firmeza, a destreza e a habilidade; de estudiosos que passaram a vida estudando, acumulando saber e conhecimento. Porém, estes atualmente se encontram perdidos no infinito ou em algum recanto do cérebro. É triste, desestimulante e deprimente à primeira vista. No fundo, somos felizes.


Vim porque quis. Não havia necessidade, pois ainda ando, falo e posso fazer minhas ações sozinha. Sou chamada de arteira, sempre fujo para o quintal a fim de desenvolver meu lado maternal, dando de comer para os passarinhos e orientando as rosas e outras flores. Tento podá-las, e a força me falta. Rio, porque a gente não percebe que perde as coisas aos poucos e, quando vê, já se foi. Para sempre. Meu instinto de mãe, por outro lado, nunca se apagou, assim como a amargura pelos atos do destino. Perdi os homens do meu acaso: papai com 7 anos; meu marido com 10 anos de casamento; meus dois filhos homens quando ainda eram adolescentes. Só tenho filhas e a existência delas comprova a mim que as mulheres são mais fortes.


Não renego Deus, nem o culpo por tudo o que aconteceu. Só queria que ele me levasse também, já são 85 anos dentro de um espaço sem escolha. Foi tudo acontecendo, sem que eu percebesse que estava sendo levada. A minha decisão em encerrar meus dias e em me encarcerar na casa de repouso para idosos foi a resposta ao tempo. Pelo menos, no fim, fiz o que posso. E ele, teimoso, poderoso e prepotente, deve ter dito: “Ficarás aí, enquanto eu quiser. Vais mofar e te sentires sozinha”. Não me importo, pois assim aprendi que os nossos sentimentos quem controla somos nós mesmos. Abro um sorriso, sinto a felicidade e espero. Pela hora de acordar, de comer, de fugir para a minha fantasia, de assistir a degradação dos outros, e sem confessar, anseio pela hora que vou parar no meu Parque da Saudade.

 

 

José Eduardo Brum

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 1º de julho de 2008.

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