Morrer custa caro

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Paga-se um preço muito alto pela morte. Ainda mais quando é em outra cidade. A começar do interurbano: como está o fulano? e a beltrana? já sabem o que fazer? e depois? morreu? vou praí. Ouvidas as recomendações, os preparativos: corre para tomar banho, pega-se uma muda de roupa, uma toalha, um pijama (dormir no velório só cabe a um?), documentos do carro e as chaves. Na estrada, parada para comer e abastecer num posto que mostra no preço ser o único em muitos quilômetros.

 

No velório, um caixão, flores, café, flores, água e flores.


Por trás do caixão, todo um serviço de atendimento, que compreende a burocracia de retirada do hospital, autorizada após todas as contas em dia, a preparação do cadáver para a exposição, a escolha do melhor leito e a preparação da morada adequada.

 

Por trás das flores, pessoas queridas que prejudicaram a saúde em horas de angústia ao lado do doente, acompanhando remédios que em doses menores também tomavam e, com mais vagar, também os matavam. Trabalhadores que oneraram os patrões com ausências justificadas pelo ente moribundo, que perderão rendimento com o foco embaçado de preocupação.

 

Por trás do café, horas e horas de serão ao lado do caixão e das flores. Um velar mais prolongado do que o corpo descafeinado agüentaria, um consumo fisiológico sem medida. Gastos com bolos, pães, frutas e outros acompanhamentos despertáveis na madrugada fria, a ser paga com agasalhos e mais café.

 

Por trás das flores, os políticos. Sempre há os políticos, que gastam os custosos impostos cidadãos para enviar uma coroa de flores ao defunto de quem nem sequer recordam. Há os políticos-metáfora, os que fazem o mesmo, gastam natureza sem sentir por quem adubará as coroas de quem pagou por estas.

 

A água das lágrimas derramadas, da dor de cabeça, da bênção, da chuva que sempre cai, da sede por mais um minutinho para dizer as últimas palavras, do rio que corre mais rápido do que o dinheiro pode alcançar.

 

Morrer custa caro para quem fica e colhe as flores do vazio.

 

 

Gustavo Burla

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 25 de agosto de 2008.

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