Na fila do seguro-desemprego

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– Boa tarde, em que posso ajudá-lo?


– Queria ver se saiu meu dinheiro.


– Os documentos, por favor. Obrigado. Um momento. Seu nome não consta no sistema.


– Dá uma olhadinha melhor, moço, tem que ter meu nome aí.


– Realmente não consta.


– Pôxa vida… Tanto tempo trabalhando, aí mandam a gente embora e…


– Calma, meu senhor, não precisa…


– Ô, moço, vê se não tem nada aí mesmo. Trabalhei um tempão, comecei fazendo instalação de microfone, depois fiz anúncio e até radionovela. Outro dia a rádio fechou.

Eu gravava os comerciais. Fechou e disseram que não tinha jeito.


– O senhor está nervoso, quer um café?


– Café não vai resolver minha vida, moço. Tô velho, comecei cedo, mas não tinha carteira assinada, não posso aposentar. Preciso de um dinheiro, só pra, sei lá, comprar umas ferramentas, sair por aí oferecendo serviço de eletricista. Sei fazer instalação boa, só preciso de ferramentas. Precisava desse dinheiro. Dá outra olhadinha aí.


– Meu senhor, venha comigo, acho que posso ajudá-lo. Vamos tomar um café. Tenho uma proposta pra fazer pro senhor.


– Por que tá falando baixo?


– Porque tem muito urubu querendo roubar as boas idéias. É o seguinte: tenho uma fabriqueta na garagem lá de casa, uma confecção. Faço estampa de camisa. Só que todo mundo faz isso hoje em dia, não tem muito mercado, e como trabalho aqui, não posso aumentar minhas vendas sozinho.


– Você tá me oferecendo um emprego na sua fábrica?


– Mais ou menos. Preciso de alguém pra me ajudar a aumentar as vendas.


– Nunca fiz isso, não sei se… Tô precisando, então tá. Como é isso?


– Tem um segmento de mercado pouco explorado pela indústria de roupas e quero trabalhar nele. Vou vender roupas de pessoas desaparecidas.


– Como assim?


– Sabe aquelas pessoas que são seqüestradas, assassinadas ou simplesmente desaparecem e os parentes fazem camisas com o retrato e escrita uma frase bonita? Vou me especializar nisso.

 
– Isso todo mundo faz.


– Mas vou chegar na frente.


– Como assim?


– Não vou esperar as coisas acontecerem. Quem olha pra frente é que tem sucesso no mercado, quem enxerga o futuro, se antecipa aos acontecimentos. Aí é que você entra: você vai ligar pra pessoa, dizer que o filho foi seqüestrado e logo em seguida eu bato na porta e ofereço a camisa.


– Eu não vou seqüestrar ninguém!


– Não é de verdade, é daqueles falsos. A gente liga, faz a ameaça, deixa a pessoa apavorada, com o sentimento à flor da pele… Você fez radionovela, não fez? Então, é fácil emocionar e gente emocionada compra de tudo.


– Isso não é correto.


– Propaganda de rádio não emociona as pessoas e vende? É a mesma coisa, só que é mais pessoal, igual telemarketing, de pessoa pra pessoa. Você liga, emociona e eu vendo. Você já fazia isso, só muda o produto.


– É… Então tá, mas quero férias e décimo terceiro. Tá na CLT.

 

 

Gustavo Burla

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 17 de novembro de 2008.

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