Os gritos do silêncio

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O despertador é o primeiro ruído que o corpo quer ouvir. O dono do corpo talvez não, mas levanta, troca de roupa, toma café e cai na estrada. Caminha por entre veículos e pessoas sob o rugir dos motores matinais e sob os olhares de zumbis pouco afeitos à luz da manhã. Signos da modernidade, por vezes tardia quando de ressaca.

 

Teclados e ventoinhas desaparecem entre palavras e músicas, papéis amassados, portas batidas, mesas esmurradas e gritos infindáveis. Máquinas que trabalham no panóptico humano, que pisca e deixa respirar, até descobrir e vetar. São suásticas sacras e surdas superiores sedimentadas sem sucesso sobre saudáveis e sabedores sãos do secretariado sem sutileza, sobretudo social (democrata?). Com pratos e talheres batendo, o almoço faz parte da rotina, sinal da contemporânea correria capitalista, por vezes prejuízo.

 

No templo dionisíaco, a reflexão é parcelada em atrasos, com alguns sem voz e muita tranqüilidade entre pandeiros e cantos que bradam os poucos acordes do passado. Todos juntos somam individualidades que discursam aos ventos que passam, pais e filhos, sem que o suspiro seja ouvido. Sem fones nos ouvidos, das páginas do livro besta emana o único som do público. Semiologia dos tempos de tecnologia, por vezes pobre de rima e de magia.

 

E o resto, significativamente, é silêncio.

 

 

Gustavo Burla

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 23 de junho de 2008.

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