Próprios medos

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Já era hora. Havia adiado tanto e desta vez, não. Acordara de madrugada pensando no que poderia encontrar. A vida estava para mudar. É certo de que as vidas se transformam a todo dia, mas no caso dele, o que ele iria encontrar traçaria vários novos planos.

Amanheceu como qualquer outro dia, porém, o pensamento não se desligava da preocupação. Fez o que deveria fazer para que ninguém percebesse a inquietude. Almoçou pouco, a comida simplesmente não descia. Seus familiares perguntaram sobre o futuro. Não sabia esta resposta, nem se importava. A única que queria saber estava pronta há dias, esperando para que a coragem e o sentimento constante de fuga dessem um pouco de trégua.


Resolveu ir a pé. Tinha cogitado a presença de amigos, mas tinha desistido. Começara sozinho, terminaria de tal maneira. À medida que a distância se encurtava, mais demorava para chegar. A respiração acelerava, o coração palpitava tão forte que sentia a pele acima dele se esticando. Os braços ficaram pesados e o desespero havia se implantado. Estava no limite da confusão. Queria apenas que alguém estivesse ali para segurar sua mão.


O elevador não chegava. Por um instante, se perguntou o que faria se o resultado saísse do jeito negativo. O que mudaria? Iria se arrepender ou se odiar? As memórias não surgiam para que parasse de pensar tristezas e desilusões. Por minutos, desligou-se do mundo. Não queria saber de mais nada. Não sabia como receberia a notícia. Fizeram-no esperar. E mais enjoado e tenso ficava. Olhou para um bebê, e sorriu com aquela presença. A criança estava limpa, ele talvez não.


Chamaram-no. O papel tremulava nas mãos da moça. Não queria olhar para a folha, muito menos para os olhos dela. Sentia a vergonha. Tinha tudo para dar certo, mas falhara e deveria conviver com isso. Quando ficaram a sós, o resultado veio mais rápido que o esperado. Descobriu que o negativo podia ser positivo. Apesar do alívio, tremia ao assinar. Pode parecer clichê, mas ele nascera de novo. Tudo parecia mais brilhante. O sorriso foi mais intenso. A partir daquele momento, faria as coisas acontecerem diferentes, ou, pelo menos, da melhor forma possível.

 

 

José Eduardo Brum

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 17 de dezembro de 2008.

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