Tremores

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“Quando não tinha nada, eu quis.”


Era um sentimento que o dominava. Desde criança, só gostava de balanços. Sentia-se mais solto, despregado das coisas. Ficava balançando em árvores. Era jogado para o alto, virado de cabeça para baixo e torcido no ar. Essa era a sua diversão. Sentava-se no colo do avô e permanecia por horas, sentindo o tremor das pernas fortes do velho. Eles estavam se fundindo, sem que pudessem perceber.

 

Quando entrou na adolescência, não se importava com as aparências. Só queria a vida agitada, percorrer o mundo, sentir os sacolejos das estradas esburacadas e os trancos do cavalo arisco. Sabia que precisava da violência da capital.

 

E foi assim que se tornou maquinista. Queria sentir as tremuras o tempo todo. Por vários minutos, permanecia em pé muito próximo aos trilhos por onde passava o trem com seus incontáveis vagões. Entrava em êxtase ao sentir as ondas que vibravam o seu corpo, que sacolejavam seu ser, que o erguiam e que o balançavam para uma inconstância do momento. Adorava, buscava, queria, desejava.

 

Não se casou. Se bastava. Até que o impensável aconteceu: ele mesmo irradiava o tremor. Não mais comia, não mais se cuidava. Era dependente. De alguém que não conhecia, e nem queria conhecer. Por toda a sua vida ordinária, desejou ser sacolejado. Quando alcançou a dádiva, percebeu que já não tinha mais escolha. Agora só tinha um desejo: que suas mãos não tremessem mais, porque, por dentro, tudo já estava fora do lugar. Foram anos de estrago próprio, foram anos de tremores supérfluos.

 

 

José Eduardo Brum

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 9 de junho de 2008.

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