Últimas palavras

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Amor,

estive pensando muito no que conversamos e decidi não escrever mais. Cada frase que a tinta fere no papel parece navalhar seu coração e não suporto mais sentir sua dor. Posso viver sem palavras, sem voz, sem letras, mas não sem você, e é com o coração que tomo esta decisão. Minha carreira termina aqui, do pó ao pó, pois começou com você.


Minhas primeiras acrobacias ortográficas foram as cartas de amor que te conquistaram. Das ingênuas e temerosas nasceram as maduras e até as picantes. Namoro fogoso o nosso, se publicássemos as cartas… Mas não é meu estilo, não me teriam premiado se eu tivesse uma publicação dessas no currículo. Mas foi ali que aprendi a escrever, a brincar diante da folha de papel.

 

Os contos vieram depois, durante o namoro, e os romances após o casamento, quando a estabilidade do lar e da relação permitia reflexões mais amplas. Não sei quando começou o ciúme, só percebi que havia quando o tom não foi ameno ao perguntar porque havia dedicado aquele conto a um amigo. Expliquei, você sorriu, mas não foi um sorriso sincero. Por outras vezes isso aconteceu, sempre expliquei e você sempre sorria do mesmo jeito.


Outro ponto crucial ocorreu no dia do discurso do prêmio. Era um discurso para a entidade, para as pessoas que me escolheram, para os leitores e, claro, para você. Naquele dia, do alto da tribuna, a distância mostrou-me que os dentes que sempre me mostrava após as explicações não eram necessariamente um sorriso. O limite foi quando briguei com a empregada porque havia dias que ela não preparava o almoço pedido, tudo porque você jogava fora os bilhetes que eu deixava para ela.


Não quero ser um eremita sentado no topo do Olimpo dos escritores. Vou fazer concurso público, bater de porta em porta procurando um ganha-pão, procurar qualquer forma de manter o conforto da sua vida ao meu lado, desde que eu não escreva mais.


Pela última vez me despeço.


Palavras,

Daquele preso ao seu lado.

 

 

Gustavo Burla

 

 

Publicado originalmente em http://hipocondria.blog.terra.com.br, 14 de julho de 2008.

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