Gastrite

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Depois de mais de um mês infernal, dividida entre as vãs tentativas de atualizar o blog atrasado e a trabalhosa missão de migrar todo o catálogo de doenças para o endereço novo, era normal a barriga doer um pouco, já tinha se acostumado com isso. Não esperava, porém, de forma alguma, a voz do médico a confundir prescrições com predestinações. Cadê o antiácido, questionou-se enquanto ele receitava moralidades. Se continuar nesse ritmo, engolindo qualquer desaforo que põem na sua mesa, o problema não vai mais ser o estômago, seu coração é que não vai agüentar. Imaginou a gastrite atacando-lhe os vasos cardiovasculares, comprometendo-lhe a irrigação cardíaca e perguntou se, em vez da endoscopia, não poderia fazer uma ponte de safena.

Em seu repouso pós-operatório, explicava o porquê da cirurgia com ares de entendida: o número de batimentos cardíacos de um ser humano é inversamente proporcional ao volume de fluidos gástricos que seus órgãos digestivos lançam no organismo. Os hipocondríacos de plantão assustavam-se; gastroenterologistas, cardiologistas e demais istas listados no livro de telefones do plano de saúde reviravam os olhos com a escassez – para não dizer completa ausência – de fundamentos científicos na modesta teoria. Ela não respondia e apenas seguia em sua vida de engolir sapos, certa de que agora tinha poupado o coração.

Ledo engano. Metáforas não precisam de laboratórios; só de dor.

 

Táscia Souza

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