No próximo trem

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Ficaram olhando um para o outro, a estação cheia de almas vazias de partida. Já na porta do vagão, ela se lembrou da passagem: pegou a passagem? Sim, sim, e tirou o papel amassado do bolso. Documentos? Estão aqui. A mochila no ombro pesava menos que o até logo, doído. De repente ficaram sem palavras. Ele correu os dedos pelos cabelos louros dela; ela acariciou-lhe de leve a barba não feita. Era tudo, então. A locomotiva apitou noutro mundo, longe daquele universo de olhares tão seu. O espaço entre a vida sonhada e a vivida agigantava-se, ávido. Nas pupilas de ambos refletiam-se as mesmas imagens: a parede pintada para receber quadros, o banco de madeira na varanda de frente para a rua, o apartamento novo, mobiliado, decorado, deglutido e agora regurgitado pelas escolhas que nos escolhem antes que possamos decidir. A perspectiva da distância era feita do mesmo ferro da estrada, fria e fatal. A gente se vê no fim de semana? Acho que no feriado, talvez. É, no feriado, claro. O maquinista tinha pressa, a estação se fartou de adeuses. E o futuro se faria assim, até que o trem trouxesse ou levasse um dos dois.

 

Táscia Souza

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  1. Ler e reler estas delícias no café da manhã, logo depois do caderno político, é como ir ao dentista e depois tomar um sorvete. Ajuda a cicatrizar!

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