Drama

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– Preciso de um comprimido contra metáfora.

– Como?

– É, doutor! Qualquer remédio que me cure dessa síndrome de literatice. Minhas narinas estão congestionadas de tanto respirar lirismo. Meus amigos agora colocam máscara pra chegar perto de mim, com medo de cair na cama com uma gripe poética. Preciso de tratamento urgente!

– Há quanto tempo vem manifestando os sintomas?

– Há alguns meses… Mas a gota d’água foi ontem. Na semana passada fui convidado pra dar uma palestra sobre as características do webcontismo.Tema bacanérrimo, tive que passar três dias mastigando livro virtual pra entender. A coisa era tão fina que tinha até cartaz com meu nome – o contista João Curabruxo blá blá blá… – informando o dia e a hora da proeza. Aí, ontem, cheguei lá e soltei a pérola: “A internet é um portal dimensional que abre o caminho para outras formas de ler o mundo”. Ficou todo mundo me olhando meio abestado pensando que eu era poeta!

– Isso é ruim?

– É o fim, doutor! Mas que abre pra um novo começo… Aqueles olhos de coruja me encarando acenderam uma luz no meu caminho!

– Metáforas…

– Pro senhor ver como é grave! Mas por isso resolvi empunhar a Bandeira: estou farto do lirismo comedido! Do lirismo bem comportado! Do lirismo funcionário público e essas coisas todas que o bardo falou melhor do que eu. Sou um contista. O épico corre nas minhas veias. Minha caneta é a lâmina que expõe a carne crua da realidade! Vai me dar o comprimido ou não?

– Aqui está! Tome um a cada hora porque seu caso é mesmo terminal.

– Obrigado, doutor. Com essas pílulas nunca mais sairá dessas mãos um verso sequer!

– Pensando melhor… Não quer um remedinho contra metonímia também?

 

Táscia Souza

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  1. Eu adorei! Muito mesmo!
    (e se existem remédios contra, será que existem pra metáforas também? Espero que sejam ambos placebos. Prefiro os de talento próprio, não ingerido.)

    ops, acho que preciso de um agora! hahaha

  2. Que riqueza de texto. E olha que sou enjoadíssimo, heim! Não que eu seja uma autoridade em crítica, mas tenho minhas chatices, que respeito incondicionalmente.

    Esse texto é de uma qualidade impressionante. E não se deixe não lisonjear pela trivialidade que a palavra “impressionante” possa ter tomado.

    Me impressionou, de fato.

    Bjs querida!

    PS: e que ironia deliciosa!

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