Cinema a três

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O tempo difere para cada um, donde não se pode aferir se a história é nova ou velha, mas os homens eram três, o filme era Coração Valente, a tarde era de quinta e o conto é fato. Pode ter invencionices, mas novamente o tempo é quem pode julgar.

Na terceira vez em que o filme entrava em cartaz no Cine Veneza fomos nós assisti-lo: o peruca, que assim chamo porque usava peruca, o velho, que não era velho mas o mais velho dos três, e eu, que sou eu mesmo, cheio de todos os cansaços quantos o mundo pode dar.

Era o último dia da última vez do filme no cinema e fomos os três, só os três, o peruca adiante à direita, eu no meio, no meio mesmo (latitude e longitude), e o velho duas fileiras adiante, bem à esquerda. Ao nosso redor o silêncio, lá fora o resto. Na tela o filme, com cada cena conhecida pelos três.

O primeiro a falar não lembro, o último fui eu. Cinema é lugar de estar sozinho, de deixar o filme fazer tudo. E nós deixávamos, ele fazia tudo o que nós dizíamos e, como o antecipávamos, fazia melhor. Parecia conversa ensaiada, tinha o time certo, a pausa calculada, a intimidade de velhos amigos. Os quatro.

Na hora de segurar forte na cadeira, todos seguramos, na hora de conter as lágrimas nem todos tentamos, na hora de nos despedir, todos calamos. Cada um a seu tempo, com a cabeça baixa, misturamo-nos à rua.

Gustavo Burla

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