Todo mundo está esperando

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Já não sabia há quantos anos olhava aquele horizonte esverdeado, tomava fôlego e começava a machadar. Nada de motosserras, ainda artesanal. O ritual era o mesmo. Novembro chegando à metade sinalizava que a plantação deveria ser cortada.

As pessoas do vilarejo eram as únicas contempladas com os pinheiros. Mas antes que cada casa ganhasse a própria, tinha o cheiro. Impressionante! As primeiras machadadas jogavam no ar o aroma pesado, estimulante e gritante da seiva que não iria mais chegar ao destino. O povoado ficava em estado de excitação, de alegria, de expectativa. Hora de comprar lembrancinhas, de começar a matar porcos e galinhas, de arrumar a sala com presépios e decorações natalinas.

No entanto, naquele Natal, ele se recusara. Seria ecológico. Não iria derrubar nenhuma. Deixaria o verde no lugar como se quisesse mostrar que estava seguindo as agendas contra o aquecimento global.

O povo foi ficando inquieto. Queriam iniciar os preparativos, mas tinham medo de quebrar a tradição e receberem uma grande maldição. Chamaram o prefeito, apelaram ao padre e requisitaram o delegado. Recolheram assinaturas. O assunto do momento era o atraso dos pinheiros. Ninguém se deu ao trabalho de perguntar-lhe a razão da demora, só reclamavam e insistiam que aquilo era um absurdo. Nesse meio tempo, os comerciantes, junto das galinhas, porcos e perus, eram os únicos contentes: estes, por acharem que seriam poupados de tão trágico destino; aqueles, pensando em aumentar preços pela venda próxima à noite de Natal.

Ele estava satisfeito consigo mesmo. Fizera algo diferente, não seguira protocolos ou determinações. Salvara os pequenos pinheiros que cultivou e viu crescer. Não se envolvia no Natal, nem aparecia na cidade por não conseguir encarar os pinheiros que secavam à medida que o tempo passava. Ali, em pé, eles eram todos seus.

Os habitantes do vilarejo não se agüentaram mais. Chamaram os jornalistas da capital. Aquela situação era intransigente! Já que os manda-chuvas não quiseram intervir, eles próprios, tornando-se uma corja de “bem-feitores”, invadiram a área e cada um tomou o pinheiro que quis. Satisfeitos, foram montar seus natais.

Coitado, não pôde fazer nada. Não barrou ninguém. Apenas seguiu a lógica capitalista: se era uma necessidade incontrolável ter aqueles pinheiros, passaria a cobrar. Uma fortuna por cada pé.

José Eduardo Brum

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