Ano novo

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Encheu a boca com doze uvas verdes – uma para cada mês do ano ainda em trabalho de parto – e prometeu silenciosamente que a partir do próximo dia a vida seria diferente. Iria emagrecer. Entrar para uma academia. Fazer lipoaspiração. Mudar o corte do cabelo. A cor. O guarda-roupa. Arranjar um namorado. Casar ter lindos filhos ser feliz para sempre.

Os pensamentos, porém, foram ficando sem fôlego no completar das doze badaladas, as bochechas já naturalmente cheias ainda mais inchadas pelas frutas redondas. Afligiu-se ao ver as pessoas se aproximando para abraçá-la e desejar-lhe toda sorte tudo de bom feliz ano novo essas coisas enquanto sua boca abarrotada de uvas mal podia grunhir em resposta.

Numa previsível reação orgânico-fisiológica, engasgou. Sentiu que alguém batia em suas costas. Outro lhe levantou os braços. Mais algum a enlaçou fortemente pelas costas e pôs-se a comprimir-lhe o diafragma. Não conseguia falar, gritar ou respirar, mas ouviu quando resolveram chamar o resgate.

Quando o carro do corpo de bombeiros estacionou já era tarde. O simpático homem da mesa ao lado engoliu com esforço suas próprias uvas verdes e enfiou o dedo gordinho garganta abaixo da mulher, tirando a fórceps de lá toda a sufocante angústia da solidão. As sirenes da viatura parada na rua tiveram som de fogos de artifício quando ela sorriu agradecida e murmurou “Feliz ano novo”.

Nem precisou entrar para a academia.

Táscia Souza

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