Corredor

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Valice era fascinada por corredor, tarada mesmo. Corredor de casa, quatro paredes levando a algum lugar ou a lugar nenhum. Se não fosse pobre e burra estudaria arquitetura só para construir enormes corredores. Seu sonho era ter um tão grande que da Nossa Senhora pendurada no final da outra ponta só se veria a luz.

Trabalhava muito, era faxineira freelancer, recurso para visitar mais corredores. Outro recurso era viajar. Era farofeira freelancer. Juntava cada trocado que tinha pra viajar e trazer lembrancinha, uma de cada lugar, pra pendurar no corredor de casa.

Valice também tinha um corredor. Não eram quatro paredes, mas praticamente quatro portas (sala, quarto, cozinha e quintal) com uns pedacinhos de parede nos lados e no alto onde ela pendurava espelhinhos que comprava nas viagens. Conhecia todas as feirinhas da região e todos os grupos de excursão.

Foi uma amiga quem disse pendura espelho que seu corredor fica maior. Pendurou um comum, na moldura, mas achou que era coisa de gente rica. Valice era refinada, mas era pobre. Trocou o espelho por um que tinha quando pequena, com uma menina ajoelhada num altar e Valice escrito do lado. Era ela, ficava ao pé do berço. Devia ser pras visitas saberem o nome dela. Ou pra ela mesma entender.

Foi o primeiro e continuava lá. Era também o maior, pois Valice, refinada, comprava pequenos suvenires, pra colocar quantidade, símbolo de sua cultura transmunicipal.

Um dia a escada não alcançou a parte alta do corredor, que crescia com tantos espelhos, e teve que comprar outra. Comprou logo uma grande. E de viagem em viagem, Valice, cada vez mais culta, foi a outros estados e a outras feiras.

Aposentada, viajava mais e mais e comprava espelhinhos de todos os lugares. De Aparecida trouxe o último, o único maior que seu altar, e deu jeito de pendurar no teto. Valice era requintada, queria fechar com chave de ouro. Enquanto o velho se esticava para encostar o dedo no dedo do moço, Valice estrebuchava de felicidade quando a luz a alcançou lá no chão.

Gustavo Burla

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Uma resposta »

  1. Perfeito. É uma dessas coisas que a gente lê e pensa: como eu queria ter escrito isso! Adorei a parte do “Se não fosse pobre e burra estudaria arquitetura só para construir enormes corredores” rsrs. Parabéns.

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