Acabamento

Padrão

Procurou por meses pelo apartamento perfeito e não encontrou, o que chegou mais perto tinha vizinhos calmos embaixo, nenhum em cima, sem elevador ou porteiro, vaga na garagem de frente para a saída e uma vista de doer o coração de tão bonita. Mas tinha um prédio em frente ao seu, do outro lado da rua, quase pronto. Queria evitá-lo, mas, ponderando espaços e valores, era dos males o menor.

Mudou-se.

Diariamente acordava e dormia olhando para o prédio, vazio, cinza, sem acabamento, no canto do enquadramento, mas chamando mais atenção que o resto da vista. Vez por outra, geralmente à tarde, via um pedreiro ou outro fazendo um nada por lá.

Mantinha a cortina entreaberta… Entrefechada, é esse o termo, para ninguém violar sua privacidade, e ainda assim não andava mais de cueca pela casa ou saía pelado do chuveiro, preocupado com o prédio em frente.

Mês após mês, o acabamento da fachada do prédio foi se completando, um andar aqui, outro ali, sempre com a tela verde protegendo os pedestres e carros lá embaixo. Mas quem protegeria sua intimidade, ainda mais com tantos vizinhos…?

Na iminência de vencer o contrato o prédio estava na mesma, ainda sem o acabamento, ainda sem vizinhos, e por todo o tempo em que viveu ali nem mesmo um olhar tentou penetrar suas cortinas, invadir sua privacidade, entrar em seus temores. Sofreu por antecipação.

Gustavo Burla

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