Uma simples tarde de quinta

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De repente o telefone tocou, perguntando se poderia comparecer naquela tarde. Arrumou a pouca bagagem correndo, deu uma passadinha no futuro ex-trabalho e se preparou para embarcar. Sabia o motivo de tal chamada. Seria contratado. Enfim alguém estava lhe dando crédito. Ou oportunidade:

– Você é uma ótima pessoa, foi nosso melhor candidato. Todos gostaram da sua visita, simpatizaram. Tem bagagem. Mas não estamos procurando alguém gabaritado e de boa índole. Queremos uma pessoa besta sem escrúpulos. Que se arrisque, que corra de frente para o perigo.

– Eu posso ser assim

– Acho que não. Quero uma pessoa que não questione nossa busca frenética por sangue, violência, baixaria, acidente e morte. É isso que traz dinheiro. É isso o que o povo quer. Você não se encaixa aqui. Me desculpe.

– Por que me chamou se não era sua intenção contratar?

– Estou fazendo meu doutorado sobre como as pessoas reagem ao receberem notícias ruins, que as decepcionam. Você é uma cobaia. Enquanto eu falava, fui percebendo traços de agonia nos olhos, nervosismo no nariz, apreensão na boca. Vi veias ficando mais intensas. Sua cor variou cinco vezes. Isso tudo foi por uma causa nobre.

– E você já se autoavaliou?

Saiu dali com as mãos doloridas, mas tinha arrebentado a cara daquele sujeito petulante. Uma pena não ter contado quantos dentes quebrara. Pelo menos, fora misericordioso: não quebrara o espelho na testa dele, oferecera-o para que pudesse se analisar depois da surra.

José Eduardo Brum

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