TOC

Padrão

Encheu o saco do analista e resolveu procurar outro tipo de terapia. Em primeiro lugar, queria alguém com quem conversar, que retrucasse suas palavras, que lhe desse conselhos, que julgasse suas atitudes como certas ou erradas, e não que apenas a ficasse escutando com os olhos vazios e se limitasse a fugir de suas perguntas – “por quê, doutor?” – com questões evasivas que só tinham o poder de deixá-la acordada o resto da noite – “por que você acha?”.

O segundo ponto da lista é que queria alguém que anotasse suas palavras; ou que pelo menos aproveitasse a consulta para fazer observações escritas sobre seu caso. Não que achasse seus problemas dignos de serem grafados para a posteridade… Mas mesmo assim, por trás da modéstia, alimentava o sonho secreto de que seu tratamento seria registrado em livro e de que ela viria a ser fundamental para a evolução da psicanálise, uma espécie de Bertha Pappenheim do século XXI. O diabo do analista, porém, não rabiscava uma letra sequer e se limitava a passar os quarenta e cinco minutos pelos quais ela pagava para falar sozinha girando os polegares e murmurando hum-huns como se fossem a descoberta científica do milênio.

Tudo isso seria contornável, contudo, se não fosse pelo terceiro, último e mais importante argumento: queria um consultório que não fosse abarrotado de sofás.

Decidiu-se, então, por um outro modelo de tratamento, alguma-coisa-cognitivo-comportamental, que lhe indicaram no salão. Foi batata. A saleta do novo psicólogo tinha apenas uma mesa e duas cadeiras, uma delas já ocupada pelo próprio, de modo que ela não precisou gastar preciosos minutos – e moedas – tentando se decidir em que lugar se sentar. “Então, doutor, sou afligida por um mal dos mais graves… Tenho pesadelo com sofás. Na minha casa tem dezenas deles, espalhados por todos os cômodos, até no banheiro e na cozinha!, e eu fico em pé, zanzando de um espaço para o outro, sem saber em qual deles devo me sentar. O que o senhor acha que isso quer dizer?” O terapeuta parou de anotar e esboçou um sorriso. “Acho que você deveria parar de comprar sofás.”

Saiu dali e comprou um divã.

Táscia Souza

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