Paraíso

Padrão

Eram 463 degraus. Quando viu o número, impresso num cartaz colocado na porta de entrada, pensou logo que deveria ser um equívoco. “Não é pro céu que quero subir, não ainda…”, cochichou ao marido, em português mesmo. Eram tantos compatriotas na fila, porém, que a estratégia de essa-língua-é-só-minha-e-ninguém-fala não funcionou e várias cabeças entendidas do idioma viraram o rosto para olhá-la desdenhosamente. Ele lançou-lhe uma expressão furiosa – que provavelmente era em esperanto, de tão universal – e empurrou-a em direção à escadaria.

Nos primeiros 43 até que foi bem, pois era exatamente esta a quantidade de degraus subida diariamente em casa, da garagem até o terceiro andar do prédio, onde ficava o apartamento alugado. Ainda faltavam 420, contudo, e ela já resfolegava como se o esforço diminuísse o tamanho dos pulmões. Mais um olhar em esperanto do marido avisou-a para nem se atrever a parar, já que havia uma verdadeira romaria atrás dos dois e seria impossível ceder espaço para ultrapassagens no caracol cada vez mais estreito. Achou que realmente subia em direção à morte, que viria na forma de um ataque cardíaco ou de uma forte crise de claustrofobia. Ainda bem que já deixara testamentado o desejo de ser cremada: outra sensação tão asfixiante não ia suportar nem do lado de lá.

Quando os últimos seis ou sete degraus – já tinha perdido a conta no 351º suspiro – verticalizaram-se ainda mais em direção ao um pequeno alçapão no teto da câmara escura, quase desfaleceu de vez. O jato de ar primaveril, contudo, atingiu sua face corada pelo exercício, reavivando-lhe os olhos já desacostumados de luz para o ensolarado e amarelado fim de tarde florentino. A escada, afinal, era mesmo para o céu.

Táscia Souza

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