O bobo

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A lingüiça estava comprada há três dias. A couve era fresca. As batatas ficaram na água desde a manhã. Tudo estava em ordem. Aparentemente.

A avó ajudara apenas a acender o fogão de lenha. O pai, que prometera fazer uma fava, não dera notícias. O irmão com a namorada iria atrasar. A mãe não poderia vir, pois não falava com o cunhado. Este, desconcertado com as crises familiares, disse que iria à rua comer um caldo. Será que deveria ser mais explícito? Não dava pra supor que um caldo verde estava a caminho?

Verde, azeda, incômoda estava a situação. Era pra ser uma típica noitada familiar, com muita conversa fiada, bebedeiras e zoeiras, e ares descontraídos. A única presente, a tia, não conseguia parar e conversar. Realizava os afazeres domésticos e reclamava da falta de afeto. Deveria ter trazido um livro. Teria sido mais proveitoso.

O caldo ficara bom. A mãe que não comparecera, ganhou um pouco. A avó se recusou a comer. Disse que estava com muito sal. Só a namorada do irmão, a tia e ele (a)provaram. O pai, o tio, o irmão e um primo chegaram mais tarde e só rasparam a panela. Arrependeram-se de ter faltado.

A falta de comida nos homens aliada ao álcool deu início a uma sessão emotiva, que ele, mesmo sempre dramático, não conseguia assimilar. O primo fez as pazes com o tio, problemas financeiros que ficaram no passado. A namorada, que desconhecia aquele lado dos futuros parentes, foi escovar o cabelo. A tia, arrependida por não ter saciado a todos, correu a fazer um macarrão. O pai começou a filosofar sobre viver a vida, aproveitar, a nossa insignificância e a importância da família. Onde a mãe se encaixava nessa história?

Mesmo com todos aqueles presentes a sensação de solidão permanecia. Pra não pensar bobeira, foi ajudar a avó a enrolar biscoitinhos de nata que foram esnobados pela tia. Fez uma flor, um coração, uma menina, letras do seu apelido carinhoso, um dragão-de-komodo, um órgão genital, um cinzeiro.

Não esperou as obras de arte da culinária serem assadas. Foi pra casa pensando nos ingredientes do outro caldo que estava desejando comer nesta época de frio.

José Eduardo Brum

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