O binófobo

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Quando todos no colégio começaram a fazer pesquisa em CD-ROM ele ficava mergulhado nos livros e dizia que não precisava daquilo, tinha a Enciclopédia Britânica em casa.

Antes das trocas de e-mails e das pesquisas migrarem para o Cadê já havia aulas de informática no colégio, mas com três alunos por computador ele sempre dava um jeito de esquivar-se do contato físico com o virtual.

Cresceu arquivista, abria e fechava pastas, criava índices e ícones identificatórios, manipulava a memória da repartição sem dar um clique. O mais perto que chegava do sistema binário era passar o cartão de ponto, o que por vezes adiava em horas extras não pelo vencimento, mas para evitar o clique que o acompanhava até em casa.

Trocava correspondências com a família, recebia fotos dos sobrinhos bebês quando eles já estavam na faculdade e jamais ia a um velório: visitava o túmulo depois, quando sabia da notícia. Quando os telefones se digitalizaram também abriu mão do seu.

Parou de votar com a urna eletrônica, não ouvia músicas pós-bolachão, só comprava na feira porque não tinha caixa eletrônico e morreu saudável e são com orgulhosos 99 anos.

Gustavo Burla

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