Blues ao amor

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Fazia tempo que ela não conseguia escrever uma história de amor. A última nascida de sua Bic vermelha (porque vermelho é a cor da guerra e do amor) tinha sido parida na dor partida do fim do namoro, quando a gente chega a pensar, como personagens de novela, que o mundo pode acabar em sorvete ou choro. Depois disso, e já fazia mais de três anos, só dava trabalho à esferográfica azul, aquela destinada aos contos patéticos do cotidiano, sem nenhum toque de paixão a não ser a de observar o passar da vida, o que acaba tendo muito pouco de amor.

Naquela madrugada, porém, consolada por uma canção de vinho e uma taça de blues, decidiu que poria fim ao jejum romântico dessa sua existência carente de beijos e de poesia. De dentro da gaveta do móvel da sala, antigo e nobre, retirou uma folha de papel florido, a única remanescente de uma primavera passada e esquecida de que o tempo é cíclico e de que só os homens se esquecem de voltar. No fundo do compartimento de madeira, onde guardava todos os frutos secos dos pés de amores plantados ao longo do tempo, a caneta escarlate jazia, sempre à espera de uma ressurreição que parecia não vir nunca. Até agora.

Tirou a tampa e, entre uma nota do vinho e um gole do blues, pousou a ponta da pena de leve sobre o papel, movendo a mão delicadamente para a direita no sofrimento universal de dar à luz as palavras. O papel, contudo, permaneceu virgem, a menos pela quase invisível ranhura que marca a pele com cicatrizes de amores não nascidos ou desfeitos. A tinta vermelha secou.

Táscia Souza

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Uma resposta »

  1. … era real!? Nos olhos, a amada em contornos de papel de parede.
    Virtual!
    Quantos “eu te amo” a tornaria mais amada? Dia após dia! Não era dor!
    Ou seria?

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