Burocratas da morte

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Difícil começar, tema polêmico, mas a morte é cheia de burocracias. O médico informa a família, que vai se informando sabe-se lá se por educação, respeito ou, como cabe ao jornalista sem diploma em cada um, por ser o dono da informação. Questão de poder.

Na funerária preparam o morto. No masculino, o corpo, morto não tem sexo, como os anjos (lindo). Ajeitam cabelo, maquiagem e figurino sem poderem exagerar ou pensar no prêmio ao final do desfile. Limitar a criatividade do artista é a morte.

No rabecão cuidam pra não arranhar o caixão, tentam chegar logo ao velório e sumir o quanto antes. Deixam tudo arrumado, com flores, homenagens, véu e cafezinho, quando não uns salgados ou, nos lugares da boa morte, broa com cachaça.

Até aqui há diversão, nos bastidores ou não.

É chegada a hora do enterro.

Caixão levado em cantilena, família (todo mundo é família nessas horas) aos prantos, cabeças baixas. Lá na frente, os coveiros levam o caixão, colocam no buraco e cobrem com pedras ou terra enquanto, coitados, são observados atentamente. São os burocratas finais, o ápice da cadeia burocrática, aqueles que estão ali, no centro do palco, e ainda assim contra-regras. Como ter prazer no que faz? Imagine sorrir no trabalho?

A morte é burocrática até o fim.

Gustavo Burla

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