Cineminha de domingo

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Havia semanas não iam ao cinema. Não juntos. Ele ainda costumava dar suas escapulidas na hora do expediente, quando precisava fazer algum trabalho de banco. As agências sempre tinham muita fila nesses dias, era o que dizia para os chefes. Eles acreditavam, porque chefes não vão a bancos normais nem para checar se os funcionários estão mesmo na fila. Mas ela não. Seu emprego não incluía enfrentar filas de qualquer tipo, nem de banco e muito menos do pipoqueiro em frente ao cinema.

Aquele dia, porém, era um domingo, quando nenhum dos dois tem trabalho ou filas com que se preocupar. Decidiram então assistir a dois filmes de uma única vez, para acabar com o jejum numa saída só. No último cinema de rua da cidade, onde a carrocinha de pipoca ainda competia com a bombonière, as sessões começavam com meia hora de diferença, de modo que entrariam no primeiro, assistiriam aos primeiros vinte e oito minutos – tempo necessário para esvaziar o pacote tamanho médio –, correriam sala de exibição afora para comprar guloseimas no balcão de doces e depois entrariam no segundo filme, para dedicar a ele o mesmo tempo do anterior.

Assim foram alternando os intervalos, uma certa apreensão tomando-os de assalto por não estarem entendendo lhufas das películas. “Falei pra gente assistir aquelas comédias românticas. Não dá pra ver suspense assim!”, reclamou a moça. “Mas aí você não ia querer sair nas cenas dos beijos, te conheço”, retrucou o rapaz, superior. “Minha sugestão era melhor: assistíamos pedaços alternados de cada um e depois contávamos o que o outro perdeu.” Ela bufou: “Pra que ir ao cinema junto se é pra assistir separado, me diz?!”

Estavam no meio dessa discussão, equilibrando refrigerantes e balas, quando a luz de todo o cinema apagou. Falha elétrica ou alguma coisa assim. Espectadores das duas salas saíram simultaneamente, alguns cabisbaixos, outros indignados, mais alguns xingando a mãe do projetista, que se desculpava e prometia sessão grátis durante a semana. Olharam um para o outro, por sobre a muralha de comida que carregavam, sem saber nada de nenhum dos dois filmes nem de qualquer tempo extra no futuro para usufruir as gratuitas exibições anunciadas pelo projetista. Suspiraram juntos. “Acho melhor passar na locadora!”

Táscia Souza

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