Rédeas

Padrão

Criado no meio do jogo do bicho, não tardou para saber que 18 era porco, 9 era cobra, 2 a águia e 21 o touro. Aprendeu a apostar na milhar, a fazer os cercados e sempre jogar nos bichos. Como fonte de inspiração, os sonhos, fossem reais ou virtuais, serviam de fluxo constante de palpites. Mesmo assim, não ganhava.

Para fazer companhia à avó e à tia, comparecia aos bingos. Divertia-se em saber quais eram os números sorteados antes da maioria, uma vez que o cantador dizia primeiro qual bicho e depois o número em si. Por exemplo: “Na letra B, cachorro”. Ele já marcava o 5. Porém, nunca batia, ficava faltando uma pedra por mais de 10 números, mas o esperado não saía.

Gostava de rifa e de mega-sena. Tinha seus números constantes que em todo o jogo eram os escolhidos. Adorava sentir a adrenalina de estar concorrendo e de ser um possível ganhador. Qualquer pessoa que lhe oferecesse um sorteio, entrava, e não era contemplado.

Tinha gente com sorte, muita sorte. Ele não se enquadrava, concluiu. No entanto, não deixava de apostar. Algum dia seria escolhido e o universo o retribuiria. E assim o fez.

Numa excursão a um parque remoto, onde ficariam por mais de uma semana, o ônibus caiu ribanceira abaixo e explodiu. Quase todos se salvaram, mas não podiam emitir sinal, os celulares se perderam no acidente. Subir o rochedo era impossível. Teriam de esperar que notassem a ausência.

O problema resumia-se à alimentação. Não havia, não conseguiram colher ou caçar nada. A saída era comer um deles. Mas quem? Quem se voluntaria? Recorreram ao palitinho. O escolhido foi ele. Enfim, tinha sido sorteado. Ganhara o prêmio de ser refeição de seus companheiros. Com o coração sereno, aceitou: “Não era o que eu sempre quis? Tornou-se realidade”.

E quando a faca amolada veio para cima dele…, fugiu. Tinha muitos concursos a participar e a concorrer. Tantas perdas e prejuízos já havia amargurado, mais aquela não faria diferença.

José Eduardo Brum

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Uma resposta »

  1. Gostei muito do texto porque demonstra a necessidade de ser flexível para com a vida, o contexto muda o que desejamos, de acordo com o sonho dele de ser escolhido e a consequente fuga pra não ser o escolhido. O texto é direto e é bem sutil. Parece muito simples, feito apenas para entreter. Mas, em análise detida, é reflexivo e faz a gente pensar. Gostei da veia cômica do autor, interessante. Muito bom o texto!

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