O clube

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Às Luluzinhas

Elas se reuniam todos os dias, durante o recreio. Eram três, quatro, às vezes cinco amigas que saíam apressadas das aulas a fim de se sentar em seu banco preferido ou debaixo daquela escada meio escondida, onde os segredos de juventude só eram interrompidos pelos meninos mais abusados, que insistiam em desvendar-lhes os sussurros misteriosos sem nem sonhar que eram eles mesmos o seu assunto preferido. Não frequentavam todas a mesma classe, mas não fazia mal: naqueles quinze minutos de intervalo que passavam juntas aprendiam muito mais do que na soma das aulas de matemática, na conjunção das lições de português, no calor das práticas de física, ou na vivacidade das explicações de biologia – por mais gato que fosse o professor.

Quando terminaram a escola, os encontros ficaram mais espaçados. Nos primeiros anos da faculdade, chegaram mesmo a se limitar a uma ou duas reuniõezinhas a cada ciclo da Terra ao redor do Sol ou, inclusive, a ser substituídos por um telefonema rápido aqui e outro acolá, nos aniversários de uma ou de outra. Apesar disso, quando se viam, era como se ainda vestissem calças jeans largas e camisetas compridas de malha cinzenta e continuassem o papo da véspera com o mesmo interesse e o mesmo frescor.

Com o fim da faculdade, era até de se esperar que a vida adulta as consumisse tanto que não tivessem mais nem um tempinho pra se verem, nem que fosse para um café apressado a cada cinco anos. Não foi bem o que aconteceu, porém. Compromissos de trabalho, contas a pagar, crises para gerir, hipocondrias para tratar… nada disso tinha vez quando alguma delas enviava um e-mail lacônico, mas que parecia prenunciar os quinze minutos de recreio mais divertidos que poderiam desejar: Clube da Lulu nesse sábado, meninas?

Era nessas horas que, por um instante, o tempo se esquecia de passar.

 Táscia Souza

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Uma resposta »

  1. O tempo passa e esses laços se perdem. Essas reuniões de luluzinhas já não existem mais na minha vida há um bom tempo. Já não me recordo mais dos aniversários. Lendo seu texto percebo que eram dias felizes.

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