Flashes de uma sensacional virada

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Antes de sair, correu na agenda e procurou a folha em branco com os dizeres: “Enumzofáli Agobála”. Por um momento, pensou se daria certo. Olhou pela janela. O réveillon já estava semi-arruinado. A chuva fraca e intensa, como se alguém a polvilhasse do alto, impediria que fossem para a praça. No ímpeto, dobrou-a e colocou-a no bolso.

“Enumzofáli Agobála”. “Enumzofáli Agobála”. “Enumzofáli Agobála”. Tatá repetiu inúmeras vezes na virada do ano novo que virou um mantra. A bebedeira intensa fez com que as palavras se fixassem na mente. Aparentemente estava dando certo, pois um conhecido a estava paquerando. Nunca poderia imaginar que aquele homem moreno, simpático, animado e … Deixa pra lá. O que importa é que ele a abraçava e sussurrava no seu ouvido. Não absorvia o que dizia, apenas repetia “Enumzofáli Agobála”, quando ele a beijou.

“Tatá, a chuva passou, vamos para a praça”. Ela saiu correndo e por um triz não tropeçou na irmã que havia escorregado na soleira da porta. “Ai, acho que ao invés de repetir para seduzir parceiros e tornar a relação sólida e intensa, você, Tatá, deveria ter trazido umas palavrinhas para evitar quedas. É a segunda vez que escorrego nesse lugar”.

Mais “Enumzofáli Agobála” misturado com o som da floresta do carrapicho, ao chegarem à praça. Já não eram mais donas de si. O mantra havia funcionado, todos observavam Tatá num curto vestido pintado que mais parecia uma reprodução de Pollock. “Você está uma gata!”. “Que corpão!”. Rindo, brindou ao “Enumzofáli Agobála”.

Na mesa de casa, as duas vagavam mirando o nada. Tinha sido tudo, mas sentiam que haviam extrapolado. “Fui a sensação de dança, todo mundo parou para olhar. O problema é que peguei todos os meus parceiros de pista. Nunca mais vou beber, não quero depender do álcool pra ser feliz”, ouvia a irmã dizer, enquanto analisava o que estava por trás do “Enumzofáli Agobála”. Era poderosíssimo. Tinha ficado com três homens, em situações comprometedoras e mega-intensas: num banheiro químico, num terreno baldio e num campo de futebol. Sabia que precisava procurar um mantra pra reverter o “Enumzofáli Agobála”. E se fosse o ano todo assim?

José Eduardo Brum

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