O piercing

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Desde pequeno ouvia histórias da família de garanhões a que pertencia. Seu pai era o terror da cidade onde morava, daquelas em que havia uma praça, uma igreja e ele, o comedor, que trazia, antes da fama, o sobrenome do avô. Este entrara para os anais por engravidar duas freiras, uma delas a madre superiora, conhecida como Adolf. Do bisavô, que veio da Crimeia no tempo da guerra de lá, as notícias também eram muitas, mas só se contavam as aventuras daqui, as de antes da chegada eram em russo e ninguém entendia.

Com esse histórico de gula na família, ele também não podia deixar barato. Só que nasceu na cidade grande, para onde veio o pai quando não tinha mais o que comer no interior. Manter a fama na cidade era difícil, a moda volúvel como água, e convinha se adequar para se manter atrelado à alta gastronomia. Então veio a moda do piercing. Na sobrancelha o rapaz tinha, o negócio era a outra moda do piercing, o erótico. Primeiro ficou desconfiado, achou estranho furar a embalagem do que funcionava tão bem, mas depois de algumas consultas resolveu aderir.

Por uns três dias pedia para trocar aquela dor por um bom chute no saco, mas foi melhorando e depois de um jejum mais doloroso ainda partiu para a ação. Como tudo na vida deve ser proporcional, seu piercing era grande. Não bastasse antes dele, o prazer proporcionado também era exponencial. Assim manteve a fama mais um bom tempo.

Culto e curioso, chegou o dia em que as economias e o conhecimento de russo o permitiram buscar as origens do bisavô. Arrumou as malas e embarcou para a Crimeia, ou achou que seria assim tão fácil. Fez check-in, despachou mala, despediu-se dos pais e foi para o embarque. Tirou casaco, mochila, câmera e carteira do bolso e o detector de metais apitou. Voltou e tirou o porta-níqueis que trazia no outro bolso, mas apitou de novo. Resolveu tirar o cinto, cuja fivela nem era tão grande, mas apitou de novo.

Um policial o chamou, pediu para abrir os braços como o redentor e passou aquele bastão com uma luzinha que ficou vermelha e apitou na região pubiana. Já imaginando o que poderia ser, fez-se de bobo e mostrou o botão da calça, mas o policial, velho de guerra, sabia que o botão da calça jeans não apitava. Superficialmente, apalpou o rapaz, mas nada suspeito, a não ser o volume da calça. Já sob a mira do superior, o guarda não teve opção e pediu para que o rapaz descesse as calças.

Os olhares de surpresa, inveja e até de gula passavam, tentando ser discretos, pelo hall do aeroporto. O rapaz tinha ciência de seu potencial, mas naquela situação não era agradável a propaganda e começou a corar, fato agravado pelo apito do bastão e a necessidade de baixar a calça. Pelo oh entoado no saguão ele poderia ter sido enquadrado por porte de arma, mas embarcou no avião.

Gustavo Burla

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