Certo ou injusto?

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No meio de privilégios, pretensões, direitos e deveres, saí do dever-ser e recebi a realidade: como dizer a uma mãe que, no dia das mães, ela não é mais mãe de seu filho caçula?

Telefone toca, atendo. Chamo a minha mãe. Ela perde as pernas, pede água. Minha avó chora de antemão. Um pai morre junto com seus dois filhos. Nossa vizinha-mãe-avó tesouro precisa saber.

Chamam aquele que dá a vida, um médico, para cuidar daquela vida que fica sem o abraço do filho e dos dois netos. Já não é fácil lidar com seus mortos, o doutor deve também lidar com os mortos que nem pode socorrer, e confortar os que ficaram.

E os carros foram chegando; a revolta em mim se instalando. As pessoas se agrupam, como se a maior quantidade fosse suprir as recentes perdas. Não os ouço, mas sinto suas reações; vejo suas emoções.

Mais tarde, resolvo confortar a mãe de muitos, que também é minha pela proximidade e consideração. Do mesmo lugar que soube da notícia, ficou. Choro. O que mais pode ser feito? A sensação de injustiça não passa. A certeza de que não é certo também permanece.

Deito, durmo e acordo. O ar da madrugada também está parado. Como ocorre no coração daquela mãe, o frio nos abate e nos cerca. Volto para minha realidade, pensando em como termina nossa missão.

José Eduardo Brum

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