DorMaria

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Maria nunca tinha ido a Aparecida do Norte. Apesar de ser da Conceição, queria muito conhecer a xará, a Aparecida. Sempre atarefada, sempre sem grana, há dois anos programou-se para essa romaria. Juntou a passagem de ônibus por meses e usaria parte do 13° para as compras na feirinha e no novo shopping.

Sexta à noite, cansada do trabalho, inventou de preparar lanchinhos. Não podia gastar, nem queria perder tempo parando para comer. Fez salgadinhos (era mais chique que pão com queijo e presunto) e um bolo que seria distribuído pelos passageiros. Como a excursão já tinha 15 anos, queria se incluir.

Por ter ficado elétrica, demorou a dormir. Deitou-se por volta de meia-noite, sendo que acordaria às duas horas para pranchar o cabelo antes de ir para o ponto de embarque, uma hora depois. Maria achou que viajaria conversando, ou rezando, ou vendo a estrada. Nada disso! Todos caíram no sono, inclusive nossa trabalhadeira e cansada protagonista. Dormiu profundamente como se hibernasse.

Com o pescoço torto por horas, foi acordada com um sacolejo para que contemplasse a vista da basílica. Ao virar repentinamente a cabeça, deu um jeito que a fez ficar com a cabeça encurvada. Com muita dor, mantinha o pescoço na posição certa para despistar. Era muita falta de sorte! Na Igreja, não conseguiu rezar. Correu até a imagem da Santa, com a qual ficou desapontada pelo tamanho, pois esperava uma Nossa Senhora Aparecida do tamanho do Cristo Redentor. Fez um único pedido: que a curasse da dor.

Passado o misticismo, correu para a farmácia e conseguiu se entupir de medicamentos para a dor muscular. Como consequência, teve bambeira e voltou para o ônibus. Dormiu. Quando eram três e meia da tarde, foi acordada pelos romeiros que voltavam, pois a excursão sairia em meia-hora. Desesperada, correu para a feirinha. Poderia voltar sem promessa ou milagre, mas retornaria cheia de sacolas.

Comprou um jogo de almofadas estampadas, uma nova imagem de Nossa Senhora Aparecida, uma arranjo de orquídea de plástico, um relógio à prova d’água para o sobrinho e uma sombrinha para ela. Ao distribuir o bolo no retorno, estava toda orgulhosa pelo milagre recebido da Santa, contando-o para todos: estava curada permanentemente de dores no pescoço, mal que, de acordo com Maria, sempre a assolara em viagens.

José Eduardo Brum

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