Consolo

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O diagnóstico foi o mais terrível, feito sentença de morte. Havia células nele se multiplicando a seu bel-prazer, formando massas compactas que se expandiam pelos órgãos e membros, corpos estranhos dentro de seu próprio corpo. Não entendia porque logo suas células resolveram comportar-se assim, reproduzir-se desenfreadamente assim, naquela tentativa de transformá-lo de dentro para fora, até que o que estava por fora perdesse o controle do que estava por dentro. Duro assim. E chorou. Todos em volta choraram, porque aquelas massas estranhas eram pontiagudas e afiadas e reluziam nas imagens de raios-X como espadas de lâminas prateadas colocadas sobre sua cabeça. Uma justiça estranha. Ou ainda uma justiça cega, como são todas as justiças.

Com o passar dos dias e dos pensamentos fúnebres, porém, as lágrimas foram dando lugar a breves sorrisos. Não havia inimigos externos a serem derrotados. Não havia fungos agressivos, nem bactérias superpoderosas, nem vírus letais. Eram células suas. Sua vida. Seu mal era feito de vida. Um excesso de vida, talvez; uma vida que não cabe em si. Mas sua força também não cabia e, enquanto ela existisse, viveria até o fim.

Táscia Souza

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