Tristeza ou pé no chão

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Para Jorge

Sempre foi pé no chão, firme nas decisões, mesmo com a fala enrolada. Quando batia o pé, mesmo sem bater, era durão que nem só, e mesmo quando dizia que não, fazia. Sujeito de roça, mexia com a cabeça das pessoas o dia todo, de pé, mas pensando nos bois do final de semana. Aquilo é que era vida.

De pisada em pisada, galgou terreno, comprou mais gado e negociou as partes dos irmãos. Sempre quis tudo direitinho, cada coisa em seu lugar, e fazia tudo correto, de palavra certa, pé no chão como ele só.

Um dia apareceu um negócio no pé, negócio de roça, dizia, e assim levou, sem deixar subir à cabeça. Assim como a roça, o negócio cresceu, ampliou terreno até que a cabeça resolveu agir. Arrastados, os pés foram ao médico para encontrar o câncer e na semana seguinte conheceram o hospital.

Vai ficar de repouso, de pernas pro ar, até sarar, falou o médico. Quanto tempo? sonhou, com a cabeça na roça de sábado. Se um mês ou um ano vai depender de você, questão de cabeça no lugar.

Ele, que vivia de pé, sem poder pisar. Repousou uns dias, deixou a cabeça mandar, organizou seus passos e teve que reaprender a andar pelo resto da vida.

Gustavo Burla

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