Destino

Padrão

Eles tinham estudado juntos desde a pré-escola, ela na frente da sala e ele no fundo. Ela aprendeu a ler antes de toda a classe, enquanto ele foi o último a conseguir juntar as letrinhas. Na quarta série ela fazia contas de dividir de cabeça – com divisor de dois ou três algarismos! -, ao passo que ele tinha dificuldades para recordar a tabuada do nove. Na oitava ela se livrou da prova final de química por ter explicado para toda a turma, antes mesmo do professor, o porquê de o número de prótons ser inversamente proporcional ao raio atômico. Ele… bem, pegou recuperação.

Foi por isso que nenhum professor teve dúvida quando ambos estavam prestes a fazer o vestibular. Ela, primeira aluna da escola, faria medicina, o curso mais concorrido de todos, e certamente conquistaria uma das primeiras colocações, senão a própria. Já ele – que só alguma divindade sabia por que não tinha repetido um ano qualquer – talvez, com sorte, conseguisse uma vaga nalgum curso de licenciatura pouco disputado. Provavelmente filosofia.

Dez anos depois, ela, já no fim da segunda residência, cansou: largou o estetoscópio, as horas de plantão, o consultório novo montado pelo pai, e resolveu voltar aos bancos universitários para ver se, sem aquela pressão toda, conseguia ser menos feliz para os outros e um pouco mais para si mesma. Na hora de marcar o xis na inscrição, lembrou-se dele e sorriu. E não é que o colega do fundo, agora recém-doutor, acabou sendo mesmo o melhor professor que já teve?

Táscia Souza

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