Nem livre por dentro

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‘O que você vai pedir ao padre?’, pensou. Ao invés da súplica, faria uma pergunta. Apenas isso.

Almoçaram correndo, pegaram um táxi e chegaram com meia-hora de antecedência. Muitas outras mil já estavam lá, cantando e encorpando uma fila que fazia umas nove voltas. Só no estacionamento.

Sem saber se queria mesmo estar com o padre, deixou a avó na fila e foi até a universidade. Antes, comprou um banco, uma água de coco e um suco de laranja para ela.

Teve uma pequena reunião de pesquisa, que demorou duas horas. No fundo pessoal, queria que o encontro da avó já tivesse acontecido. Não foi agraciado. Faltava uma volta. Nervoso por ter demorado a encontrá-la, começou a sentir o estômago doer.

Como faltava pouco, deixou-a sentada na entrada para a sala improvisada do padre. Completou o longo percurso e quando chegou às proximidades, a avó tinha sumido. Não fez mais questão de ver a celebridade religiosa.

Rodou, procurou, perguntou, correu, desesperou, sofreu, o estômago explodiu. Sorte que uma amiga, como um bote salva-vidas, ligou dizendo que a avó estava sentada na chancela dos carros: toda feliz, animada, completa. O padre tinha esfregado bastante a coluna dela para tirar as dores.

Ele, pelo contrário, ao invés das bênçãos e curas, teve uma crise estomacal com toda a apreensão. Contraiu a dor no meio do calor de fiéis, mas teve de combatê-la sozinho, no dia seguinte, no Pronto Socorro. Nunca mais.

A verdade é que não dependia do padre responder nada. Ele tinha a resposta.

José Eduardo Brum

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