2012

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A primeira vez em que pensou sobre o assunto, acreditou que o fim do mundo seria em 1984. Na verdade, ninguém lhe disse isso; foi apenas um palpite ao ver os números que substituíam o título do livro que o pai lia todas as noites. Letras por números? Era ou não um sinal claro do apocalipse?

Mas depois pensou bem – ela era um pouco lenta pensando, principalmente aos seis anos de idade – e se deu conta de que aquela data não poderia ser a do fim do planeta. Podia ainda não ter aprendido as operações aritméticas, que só eram ensinadas a partir da primeira série, mas a irmã mais velha lhe mostrara um truque com a calculadora para descobrir em que ano nascera. E se estavam então em 1990 e haviam acabado de comemorar seu sexto aniversário, no qual ela ganhara os tão ansiados patins, aquele numeral assustador da capa do livro era justamente o que indicava seu nascimento. Ou seja, nada de hecatombe geral. Ou será que o mundo tinha acabado e depois recomeçado, tendo ela a tarefa de conduzir essa nova civilização?

Mais tarde lhe disseram que o universo ia ter fim mesmo era no ano 2000. Recorreu à velha mágica da calculadora novamente – embora, àquela altura de menina prestes a completar o primário já devesse dominar as contas (ela era de fato um pouco lenta, vejam bem) – e constatou que o Armagedon seria logo após seu aniversário de dezesseis anos. Aquilo, de certa forma, provocou um desespero maior do que antes. Uma garota não deveria ser obrigada a morrer antes de pelo menos completar dezoito. Antes de conseguir finalmente deixar a escola! Era fatalidade demais para uma adolescente! E se fosse lenta também em assuntos amorosos e não conseguisse sequer arranjar um namorado até lá? Ou dar um beijinho na boca que fosse?

Quando 2001 chegou, ela já tinha beijado – e anotado em seu caderninho, para não correr o risco de perder as contas – dezesseis rapazes, um para cada ano da vida que não queria ver desperdiçada. Por isso, dessa vez, o fato de o mundo não ter terminado definitivamente ali foi até um pouco decepcionante e a sensação de trabalho perdido só foi abrandada quando escutou por alto a história do calendário maia et cetera. Seria bom ter um tempinho a mais para programar o que fazer até lá.

Táscia Souza

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