Brincadeira de criança

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Era o boa-praça do prédio. Ajudava a carregar sacolas, abria portas, cedia a vez sempre, era paquerado pelas moças solteiras e, não sei se convém falar, até pelas casadas. Um lorde como não se sabia em outra parte do mundo. E ainda por cima gostava de crianças, o que era uma maravilha para as mães do lugar sem parquinho.

Volta e meia a casa dele parecia pré-escola, sobretudo nos finais de semana, quando creches e escolas não queriam as crianças. A sala se enchia de almofadas, brinquedos, guloseimas e lá iam os pais fazer suas tarefas em conjunto e deixavam as crianças em total confiança. E se algum problema surgisse, bastava ligar para o celular deles, o que nunca aconteceu, tudo sempre foi resolvido ali.

Foi numa tarde de calor exaustivo que, com os gêmeos do andar de cima, resolveu tirar a camisa e ficar apenas de short. Qual não foi seu azar quando o pai abriu a porta, que nunca era trancada, e viu seus meninos pendurados pelos pés, como carne no açougue, e o boa-praça mordendo a barriga de um deles. Não mordendo de verdade, como Hannibal Lecter. Mordendo-soprando, pra fazer barulho e cócegas.

Oportunista, o pai fotografou com o celular, levou as crianças, abriu processo e o pobre rapaz que morava sozinho e só queria ser bom hoje mora com mais tantos em uma cela e se for bom toma no cu.

Gustavo Burla

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