Um gole de chá

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Uma noite ela tocou a campainha e tava ali na porta passando mal. Tinha um mundo de apartamentos naquele prédio e justo naquela noite de sábado em que ele resolvera ficar em casa a bruaca tinha ido incomodar. Talvez justamente por isso, por só ele estar em casa, ela tinha batido lá.

Estava pálida, pé na cova, e pediu ajuda. Mal conseguira se arrastar pelas paredes até ali e pediu um remédio, alguma coisa que fizesse digerir ou voltar aquela carne ruim que ela comera no jantar. Um daqueles pacotes pré-prontos de supermercado, recomendados para todo tipo de pessoa.

Ela fez que ia desmaiar e ele, no reflexo, a levou para dentro de casa, para o sofá, onde a velha suava sem sequer encostar-se, alegando que a cabeça doía. Perguntou novamente por um remédio, qualquer coisa para o fígado, e ele, longe de ser hipocondríaco, não tomava remédios e não os tinha em casa.

Enquanto procurava uma solução na dispensa imaginou como ela sabia tratar-se do fígado, e voltou com um chá. Com as mãos trêmulas, ela bebeu aos poucos, suando ainda mais com a quentura, enquanto ele, desconhecedor também dos efeitos dos chás, perguntava-se se aquilo faria bem ou mal.

Entre um gole e outro ele ouviu o sussurro ambíguo da mulher Senhor, tende misericórdia, e resolveu deixar por conta.

Gustavo Burla

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