Desconfiança

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O telefone tocou às duas da manhã. Era ela. Atendi puto, pronto para reclamar o abuso, quando uma voz diferente disse que eu precisava buscá-la. “Como?”, perguntei, já imaginando o local.

Ao vê-la pela vidraça da porta, eu estava com aparência mais assustada. Ela estava serena, erétil, firme. Apenas os olhos possuíam um borrão de incômodo. “Por quê?”, perguntei a esmo, sem ter noção de como ela conseguiu.

No carro, não trocamos uma palavra. Eu me concentrei na estrada. Ela, nos curativos. Continuamos amigos? Eu me sentia traído, mais uma vez preterido, esquecido. Qualquer outro assunto ou problema, ela traria a mim. Aquilo eu não merecia lidar.

Na tarde, acordei com o cheiro de café. Parecia um sonho. Totalmente transformada, ela, como sempre, havia modificado, arrumado, bagunçado o meu interior. Tudo fora do lugar ao meu redor, na minha casa

Nós nos olhamos. Como da vez que nos vimos pela primeira vez, como se fosse a primeira vez. Ela disse:

– A minha vida toda, eu tive de brigar por um espaço. Na família, entre amigos, profissionalmente, pra ser amada. E ainda assim, tenho pouco. Fico desnorteada. As pessoas não me consideram. Pouco se importam, não me ajudam.

– Tudo isso é irrelevante – respondi.

Fui para o meio dos livros; ela, para a fazenda. Nunca mais nos vimos.

José Eduardo Brum

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