Horóscopo

Padrão

Todos os dias, assim que o jornal era atirado no quintal às 6h13 da manhã em ponto, a mulher se arrastava para fora da cama e esgueirava-se de pantufas porta afora para ler ali mesmo, entre as plantas, o que o horóscopo reservava para seu dia. Era importante que o lesse antes de o despertador do quarto acordar o marido exatamente às 6h15 e tal presteza não seria possível se ela se desse ao luxo de voltar para o conforto quente da casa e refestelar-se no sofá macio para só então folhear as páginas cinzentas em busca da orientação do dia. Sendo assim, só após fazer valer a técnica amplamente desenvolvida de abrir o diário da cidade de pé no portão, sem fazer com que as páginas e cadernos pacientemente organizados pelos encartadores se desmoronassem no passeio da frente, é que ela entrava novamente na sala, com onze segundos de antecedência até que o esposo sonolento chegasse ao cômodo, ainda de pijamas, perguntando pelo café. Era de uma importância sumária que antes desse encontro ela já soubesse o que os astros lhe reservavam para a jornada e, com isso, já tivesse ideia de como recepcionar o homem para o bom-dia do dia.

Se por acaso a publicação trouxesse um “Finalize pendências antes de começar uma nova tarefa. Organizar seus pensamentos é uma ótima pedida neste dia. Se precisar resolver mal-entendidos, uma boa conversa pode dar conta do recado”, ela corria com o café pendente até estar fumegando na xícara do companheiro enquanto tentava a custo pôr as ideias no lugar para só depois passar manteiga em seu pão e perguntar se ele gostaria de conversar rapidamente antes do trabalho para sanarem a pequena rusga da véspera. Se, por outro lado, fosse um “Ouça a sua intuição e evite sair por aí falando sobre os seus planos. Saiba reconhecer quem são seus reais amigos para não se decepcionar. Aposte na sua criatividade para superar os obstáculos”, ela incrementava a primeira refeição do dia com a maior criatividade gastronômica possível, mas evitava dizer qualquer palavra ao marido (marido pode ser considerado amigo ou não?) que lhe permitisse perceber que esse era justamente seu planejamento estratégico para, mais uma vez, superarem a pequena rusga da véspera. E assim ia, cada passo medido conforme o destino prescrevera.

Até o dia em que veio: “No ambiente profissional, seja coerente em suas ações. Apresente suas ideias com clareza aos chefes e superiores e aproveite para fazer sugestões e propostas interessantes em seu trabalho”. Ora, ela não tinha uma vida profissional! Não havia chefes ou superiores a quem apresentar sugestões e propostas interessantes ao trabalho! Seu dia a dia se resumia a levantar, ir até o jardim, apanhar o jornal, ler o horóscopo em frente ao portão, voltar para dentro de casa, preparar o café da manhã e, de acordo com as orientações do astrólogo, sanar a pequena rusga da véspera. Aquele conselho não valia de nada para ela! Foi o fim de suas ilusões.

– – –

O marido foi trabalhar sem café naquele dia. Como iriam brigar de agora em diante se ela não podia nem mais confiar nas estrelas?

Táscia Souza

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