Tempo perdido

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O relógio era à prova d’água, para não sair de seu braço nem na hora do banho. De tanto ficar ali tinha deixado a pele do pulso mais fina, mais sensível, uma estreita fita de epiderme branca circundando o braço moreno. Não era bonito de se ver, obviamente, mas como ninguém via de fato, nem ele mesmo, a marca perdia a importância, soterrada pela pulseira de couro já meio malcheirosa de água e sol.

O ponteiro maior movia-se no mesmo ritmo em que ele o acompanhava, minuto a minuto. Seus gestos eram cronometrados, seus passos calculados de acordo com tiquetaquear do instrumento de medição atado como algema. Não fazia nada – absolutamente nada – que não seguisse à risca o cronograma das horas. O trajeto casa-trabalho-casa era sempre o mesmo. O ônibus no mesmo horário. O elevador até o último andar do escritório durante os mesmos contados dois minutos e vinte e nove segundos. Os dezessete minutos de almoço todos os dias, seguidos de três minutos e onze segundos para escovar os dentes. Nem a persiana da janela de frente para o mar abria para não perder tempo.

Só no dia em que o relógio parou é que viu o quanto já havia perdido.

Táscia Souza

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